11 de janeiro de 2017

4 mitos sobre Abu Dhabi

A curiosidade sobre o mundo árabe é muito comum. Especialmente entre os brasileiros, devido a enorme distância geográfica e cultural, há muitas dúvidas sobre como é a vida aqui. Não raramente, os meios de comunicação fornecem mensagens erradas (mas também não podemos nos esquecer da censura, claro) e sem conhecer pessoalmente o lugar, fica difícil saber em que acreditar, e daí surgem os mitos.

Os mitos sobre Abu Dhabi têm diversas fontes: filmes hollywoodianos, novelas brasileiras e, por que não, blogs. Temos que lembrar que blogs são veículos de comunicação livres e completamente vinculados à opinião pessoal do autor. Não vou entrar no mérito da honestidade de cada blogueiro, mas é importante confirmar informações importantes em várias fontes e em sites oficiais, pois a experiência que o autor do blog vivenciou e a sua opinião podem ser diferentes da realidade geral – o que não necessariamente representa o seu caráter – e, não menos importante, pessoas erram, sempre e o tempo todo.

Pesquise, pesquise, pesquise. Foto: João Silas Unsplash

Dadas essas considerações, fiz um levantamento de 4 perguntas que recebo comumente de familiares, amigos e leitores do blog. São questões simples, facilmente respondidas por quem vive aqui (repetindo: cada um pode ter a sua opinião sobre elas), mas que muitas vezes se encontram na internet de maneira confusa e equivocada. Vamos a elas:

1 – Mulheres não podem dirigir

Claro, é mito. Eu dirijo, minhas amigas dirigem, as árabes dirigem, há mulheres taxistas e aqui nos Emirados Árabes nos é dado o “direito” de dirigir para onde quisermos, na hora que quisermos. A origem desse mito é fácil de ser identificada: no país vizinho, a Arábia Saudita, as mulheres não podem dirigir. Esse é o único país do mundo onde isso ainda acontece.

Bom, felizmente os países do Golfo possuem legislações próprias e aqui não temos a mesma restrição. Portanto, se você, mulher, está de mudança para cá, ou se vier a turismo e tiver habilitação para dirigir no exterior, fique tranquila, pois ninguém e nenhuma lei irão te impedir de dirigir.

2 – Não se pode comprar ou consumir álcool

Outro mito, que é, em partes, verdadeiro. Aos muçulmanos é vetado a venda e o consumo de álcool, sob qualquer circunstância. Se isso realmente acontece na prática, não cabe a mim dizer ou julgar. Aos ocidentais, de um modo geral, não é dada nenhuma restrição quanto à venda ou consumo de álcool. PORÉM, há de se observar que, para comprar bebidas alcóolicas, a pessoa deve ser maior de 18 anos e ter uma licença para tal (adquirida nos lugares onde o álcool é vendido).

Natal de 2015, tomando vinho em casa. Sim, é possível! Foto: arquivo pessoal

Na prática, quando chegamos ao local onde é vendido álcool (alguns supermercados específicos), o vendedor já sabe que você é ocidental e não-muçulmano e te vende a bebida sem problemas. Mesma coisa em bares e restaurantes onde o álcool é vendido: nunca pedem o documento comprovando. Mas atenção: essa é uma experiência pessoal, que pode ser diferente da sua, por exemplo. De todo jeito, vale andar pelo caminho seguro e ter sempre um documento de identificação em mãos, além da licença para consumo de álcool.

Ainda sobre o álcool, há vários pormenores a serem acrescentados (que virão em um post específico). Mas somente para responder diretamente à questão: sim, podemos comprar e consumir álcool em Abu Dhabi (e em outros emirados também).

3 – É quente e seco o ano inteiro

Desde que vim para Abu Dhabi, mudei radicalmente meu conceito sobre “quente”. Acredito que todos que moram aqui passam pelo mesmo. Durante 3 meses o calor é in-su-por-tá-vel (junho, julho e agosto). Durante outros 2 meses é MUITO quente (maio e setembro). Os outros meses são bem agradáveis, sendo o fim de dezembro, janeiro e começo de fevereiro bem “fresquinhos”, onde podemos até usar jaqueta para sair à noite. Logo, dizer que aqui é quente o ano inteiro não é exatamente verdade, sob o meu ponto de vista, pois há o muito-quente, médio-quente e idealmente-quente.

Lembrando que minha avaliação é sobre a temperatura, não sobre a luz solar, que, essa sim, brilha praticamente o ano inteiro! Quanto à secura, não sei ao certo quando passaram a associar temperatura com umidade, mas o fato é que Abu Dhabi, apesar de estar no deserto, também é uma cidade litorânea e, não sei se só por isso – não sou especialista em meteorologia, mas não sofremos com a secura aqui. Em Madrid e em Brasília, por exemplo, eu sofria muito mais com o clima seco! Inclusive, os verões aqui são incrivelmente úmidos, o que aumenta ainda mais a sensação térmica.

No verão é assim: os óculos embaçam quando saímos ao ar livre, resultado do calor + umidade. Foto: arquivo pessoal

Logo, é sim, um mito, acreditar que aqui é quente e seco o ano inteiro. Graças a São Pedro, temos o nosso inverno delicinha e o lindíssimo mar do Golfo Pérsico para umidificar o ar.

4 – Todo mundo é rico em Abu Dhabi

Bem podia ser verdade, mas é um enorme mito. Como já comentei em outros artigos, cerca de 90% da população de Abu Dhabi é expatriada, ou seja, as pessoas vieram para cá para trabalhar e ganham mais do que ganhariam em seus países de origem, logicamente. Porém, há expatriados e expatriados. Eu costumo “nos classificar” em 3 categorias e se fosse nos colocar em uma pirâmide onde o topo ganha mais que a base, seria na seguinte ordem: europeus e norte-americanos no topo; demais ocidentais e alguns países mais ricos da Ásia e Oriente Médio no meio; africanos e países mais pobres da Ásia (principalmente Paquistão, Índia, Sri Lanka, Bangladesh e Filipinas) na base.

Os primeiros, costumam ocupar cargos melhores e de maior “prestígio”; os segundos, estão espalhados em todas as áreas; já os terceiros são os trabalhadores braçais e de serviço.

É CLARO que essa é uma generalização, utilizada somente para facilitar a visualização de vocês. Não quero aqui fazer julgamentos de quem é mais importante que quem, seja por ocupação ou nacionalidade. A ausência de qualquer “fatia” dessa pirâmide causaria imensos problemas na organização social e econômica da cidade. Dizer que trabalhadores braçais ganham menos, não quer dizer que são menos importantes – só para deixar claro. E também não quer dizer que todos os membros desta sociedade, eu incluída, concordem que esta é uma divisão justa.

Entretanto, não podemos fechar os olhos diante dessa realidade em que estamos inseridos. É muito óbvio que existe uma divisão sócio-econômica nesta sociedade e que não há, ou quase não há, “mistura” entre uma fatia e outra. Na minha singela opinião, a cultura atua também como um importante segregador. E sim, a diferença salarial entre as diferentes fatias é excruciante.

Trabalhadores em Dubai. Foto: Franck Michel Flickr

Só para ilustrar com um exemplo, um pesquisador de uma instituição importante chega a ganhar facilmente uns 60 mil AED mensais; enquanto um trabalhador braçal ganha, muitas vezes, cerca de 1.500 AED mensais. E para complementar, demonstrando como a riqueza pode ser somente uma questão de ponto de vista, esse pesquisador possui um salário “ok”, quando visto por um residente nacional (emiradense); já esse trabalhador, quando comparado ao seu país de origem, ganha fortunas.

Concluindo o pensamento só para responder à questão: é um mito acreditar que todos os moradores de Abu Dhabi são ricos, pois como tentei explicar a vocês, há grande diferença entre as classes sociais e há salários incrivelmente altos, mas há muitos salários inacreditavelmente baixos também.

***

E é isso, pessoal. Espero que tenham gostado do post e que possam ter aprendido um pouco mais sobre essa terra de grandes contrastes. Ainda tenho muitos outros artigos “no forno” nesse estilo  (esclarecendo as dúvidas de vocês), então fiquem de olho e não deixem de comentar aqui embaixo! Beijo grande.

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  • Márcia janeiro 12, 2017

    Polly, ótimos esclarecimentos, porque as pessoas no geral costumam imaginar e até repassar informacoes distorcidas quando relatam o oriente médio. Bjs

    • Pollyane
      Pollyane janeiro 16, 2017

      Isso é verdade, Márcia. É muito importante conferirmos as fontes antes de sair falando por aí, especialmente sobre uma cultura tão diferente da nossa. Obrigada pelo comentário e pela visita. Beijo grande.