Eu tenho uma história muito traumática para contar de quando fomos para a Geórgia (o país do Cáucaso, não o estado norte-americano). Se você já leu sobre o dia que eu quase morri várias vezes em Komodo, Indonésia, já aviso: é mais ou menos desse nível. A piada é horrível, mas dessa vez eu entrei literalmente numa fria. Aguardem.

Estava em nosso roteiro passar 1 dia no resort de ski georgiano Gudauri. Essa região é de uma beleza estonteante, facilmente acessada pela Rodovia Militar da Geórgia, ao norte da capital Tbilisi. A estação de ski fica a 40 km da fronteira com a Rússia. Frio? Demais. Lindo? Muito. Valeu a pena ter ido para lá, o meu post é só para te dizer o que NÃO valeu a pena, pelo menos na minha experiência pessoal.

Eu não sou muito de esportes, muito menos os de neve. O fato de eu ter nascido no meio do Cerrado brasileiro tem 100% a ver com isso, claro. Mesmo assim, gosto da ideia de ir para resorts de ski, ou qualquer lugar com neve, porque acho de uma beleza única e há várias formas de se aproveitar um resort que não seja esquiar, por exemplo. Fico contente por estar lá sem ter que me aventurar, mas não sei porque cargas d’água inventei de fazer o salto de parapente dessa vez… A verdade é que vimos ao longo do dia as pessoas saltando do alto da montanha e, ledo engano, olhando de baixo, você imagina que deve ser um visual incrível (sim, isso é) e muito tranquilo (não, não foi).

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Na estação de ski de Gudauri, vendo as pessoas saltarem de parapente. Foto: arquivo pessoal

Meu problema não foi com a altura, já adianto a vocês. Embora o fato de termos ido ao ponto mais alto da estação (mais de 2 mil metros de altitude), pegando 3 teleféricos para chegar lá. Se você não gosta de altura, nem preciso dizer que nem deve cogitar uma aventura dessa, né? Bom, a história trágica da minha viagem à Geórgia tem vários fatores, vou começar por um que foi o gatilho para que os outros também acontecessem:

Eu não sei russo

Eu não sei russo e os russos não sabem inglês (os georgianos sabem pouco inglês, mas não havia muitos deles lá no topo da montanha). Por causa dessa comunicação capenga, foi uma dificuldade contratar o tal salto de parapente e o “diálogo” com o nosso instrutor se resumia a mímicas, apenas. Agora imagina você subindo uma montanha de neve com um russo para saltar com ele – bem com ele mesmo, agarrada a ele – de uma altura de mais de 2 mil metros? Tudo isso parece muita loucura por si só, mas não acaba por aí.

A empresa não era séria

Combinamos que eu, marido e Renata, nossa amiga, iríamos pular de parapente. Por causa das (in)disponibilidades dos instrutores, marido iria primeiro e depois o instrutor dele subiria com uma de nós para saltar. Acontece que foi isso mesmo: apenas 1 instrutor subiu com nós 2, ou seja, alguém estava subindo sem instrutor – e sem falar russo, não se esqueçam. E por que eu digo que a empresa não era séria? Porque eles deveriam ter mandado cada uma de nós com um instrutor, claro, ou no mínimo ter mandado alguém imediatamente depois.

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Eu e Renata na subida para saltar de parapente. Foto: arquivo pessoal

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O último trecho do teleférico, que chega ao ponto mais alto do resort de ski de Gudauri. Foto: arquivo pessoal

O clima não ajudou

Fazia frio, claro, e não me lembro ao certo, mas a sensação térmica no topo da montanha era de aproximadamente – 20 ºC. Que seria frio a gente sabia, mas o que a gente não imaginava é que os ventos não estariam favoráveis para o salto quando a gente chegasse no topo da montanha. Resultado: tivemos que esperar MUITO para que liberassem para saltar. Nesse caso, não fomos só nós que nos lascamos, havia muita gente lá em cima esperando pra saltar. Bom, caso o clima estivesse favorável, o salto teria acontecido imediatamente e mesmo que o mesmo instrutor ficasse responsável por subir de novo para saltar com a outra, não teria demorado tanto. Mas nós ficamos bastante tempo lá em cima esperando… E com frio, muito frio.

Tem a burrice também

Burrice, preguiça ou falta de experiência, o fato é que eu e Renata subimos a montanha não agasalhadas o suficiente. Eu estava com a roupa de neve, mas com 1 camada a menos de roupa “de aquecer” por baixo. Renata estava ainda menos preparada que eu, sem a calça de neve, ou seja, sem peça impermeável. O motivo dessa falta de roupas foi porque tivemos que sair às pressas para saltar, já que não tínhamos entendido direito o horário (lembram do problema da comunicação?). Bom, não só não estávamos agasalhadas o suficiente, mas quando subimos era perto da hora do almoço e fomos sem almoçar. A fome foi batendo, porque não achamos que passaríamos tanto tempo lá em cima. Eu, especialmente. E aí vamos para o próximo tópico…

A escolha

Eu e Renata entramos num consenso que ela pularia primeiro, já que estava menos agasalhada que eu. O erro aqui foi termos deixado ela saltar sem ter a garantia que alguém viria para saltar comigo. Era apenas 1 instrutor, com quem não conseguíamos nos comunicar, e até o momento que eles pularam não havia aparecido mais ninguém da empresa para ir comigo. Esperamos bastante para que liberassem o salto dela (cerca de 1h) e depois que eles saltaram, mais 1h se passou e eu ainda continuava lá, sozinha.

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Renata finalmente saltando de parapente! Foto: arquivo pessoal

So.zi.nha.

De repente, me vi no topo de uma montanha de um país desconhecido, sem dominar o idioma das outras pessoas, com frio, com fome e sem saber o que fazer. Obviamente celular não pega, na verdade ele para de funcionar em temperaturas tão baixas. Nós tivemos que pagar para subir a montanha e eu não quis, a princípio, descer de novo os 3 teleféricos para saber cadê o instrutor. Afinal, marido e Renata e o instrutor dela sabiam que eu estava lá em cima, eles mandariam alguém para descer comigo, né? Assim pensei eu. E eles pensando que eu iria descer a montanha. E tentavam a todo custo se comunicar com a empresa para saber o que estava acontecendo. E o tempo foi passando…

O fator fisiológico

Quando você está há muito tempo em temperaturas tão baixas, mal agasalhado e com fome (hipoglicemia), seus sentidos começam a falhar. Eu me sentia confusa, não sabia o que fazer. Eu sentei no chão, na neve, e comecei a chorar. Fiquei ali por muito tempo, sem saber o que fazer, sem ação. Já tinha tentado localizar a empresa – sem sucesso. Já tinha tentado me comunicar de todas as formas possíveis – sem sucesso. Eu meio que “desisti”. Foi mais forte que eu, foi fisiológico. Eu estava com hipotermia e isso é perigoso.

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Lá do alto da montanha, enquanto o celular ainda funcionava… Foto: arquivo pessoal

Salvação

Se eu estou aqui para contar a vocês, obviamente teve um final feliz, que começou quando, por alguma intervenção divina, eu olhei para o lado e reconheci de algum lugar (tudo era muito confuso e vago) o nome da empresa nas costas da camiseta de um cara, parecia ser a mesma do que tinha subido conosco. Levantei, fui até ele e ele topou pular comigo. Provavelmente eu estava apenas chorando e ele se compadeceu, já que não conseguíamos nos comunicar. O fato é: duas horas depois no topo da montanha, eu finalmente pularia de parapente.

O salto de parapente

Para fechar com “chave de ouro” a sequência de fatos trágicos que me aconteceram nesse dia, temos o bendito e aguardado salto… que foi horrível, uma merda! Sim, eu quase morri congelada e passei um dos piores apuros da minha vida para fazer algo que achei terrível. Nunca mais faço essa loucura de novo! Eu tenho labirintite e fico tonta e enjoo com muita facilidade. Pois é, se você é como eu, também nunca se arrisque a pular de parapente, é um pesadelo! Eu fiquei MUITO enjoada e só não botei tudo pra fora porque realmente estava sem nada no estômago. Quando finalmente chegamos lá embaixo, tive uma aterrissagem, digamos, desastrada. Nada fora do esperado, a essa altura do dia.

Só para constar, sim, a vista é absolutamente linda e marido e Renata curtiram muito o salto.

O depois

Marido e Renata me esperavam lá embaixo e não faziam ideia por que eu tinha demorado tanto a descer. Eles realmente ficaram sem saber se eu desceria de parapente ou teleférico e nessa não fizeram nada. Assim que desci, eles me levaram para comer e eu comecei a ter uns sintomas muito estranhos. De repente, meu corpo tremia muito, praticamente se debatendo na cadeira. Minha mente continuava confusa e eu não conseguia processar direito o que eles falavam e muito menos responder. Demorei a ficar “bem” de novo e só depois de alguns dias tive coragem de pesquisar o que eu tive para entender melhor. Aparentemente, bate com os sintomas de começo de hipotermia e mal da montanha.

A lição

Várias lições podem ser aprendidas com essa experiência, seja por mim ou por você, que me lê agora e pretende ir para Gudauri ou outro resort de ski.

  • Não menospreze a comunicação, seja com a empresa que você está contratando os serviços ou com as pessoas que estão com você. Caso te aconteça alguma coisa, é importante que elas saibam como te procurar.
  • Se agasalhe bem em qualquer momento e para qualquer atividade enquanto estiver em uma montanha de neve. Não preciso justificar isso.
  • O gasto calórico em ambientes tão frios é maior, portanto, se alimente direito!
  • Não pular de parapente, não pular de parapente, não pular de parapente. Essa é pra mim!
  • Se se perceber numa situação de perigo ou desconforto extremo (como eu, mal agasalhada, com fome e mal instruída), aja o quanto antes! Pode ser que os seus sentidos e o seu bom-senso comecem a falhar também.

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  • MIreloe junho 28, 2019

    Post intensamente interessante, sempre estou acompanhado suas postagens tenho seu blog salvo em meus favoritos em meu navegador.
    Blog: Número dos Famosos

  • Renata maio 28, 2019

    Pior que eu e o seu marido ficamos perguntando e o cara da empresa dizia que o instrutor ja tinha subido e ia descer com você. E a gente não sabia o que fazer, se subia e corria o risco do desencontro ou se esperava. Tenso! Que bom que no fim deu tudo certo. E o meu voo… bom saí arrastada pelo cara que me puxou e me arrastou pra descer montanha a baixo. Foi tudo errado, tudo.