08 de outubro de 2015

Adaptação – pensamentos precoces

Oi, diário. Adivinhe? Estou no Brasil!

Um triste acontecimento de morte familiar nos fez vir para cá às pressas. Isso também explica a razão do meu sumiço.

Desde que cheguei, algo que tenho ouvido de 112,3% das pessoas que me encontram é: “e aí, você está gostando? já se adaptou?”. Ah, diário, você sabe quanta coisa e quanto sentimento caberiam na minha resposta.

Afinal, o que é se adaptar? De quanto tempo preciso para dizer que me adaptei? E o mais sincero: há adaptação além dos livros de Biologia Evolutiva?

Foto: CC

Chegar ao Brasil, depois de uma temporada de meses no exterior, sempre me causa um certo estranhamento. É claro que fico muito feliz em reencontrar as pessoas queridas e estar nas casas delas, mas há sempre algo de novo que não estava lá: um prédio novo na cidade que eu ainda não conhecia, uma rua que mudou de mão, uma planta nova no quarto e, o mais triste, uma pessoa a menos na casa. São mudanças que ocorrem de forma natural, mas como a gente não presencia, parece que não fazemos parte. O sentimento é de perda de conexão: observar que o mundo do lado de cá continua se desenrolando na nossa ausência. Será que ainda fazemos parte dele? Onde me encaixo?

E mesmo naquilo em que não houve mudança, os nossos olhos de observador são diferentes. Não tem jeito: viajar te contamina e, depois disso, quando você fica carregado de referências novas, o mundo muda. Até mesmo o seu mundo intocável de cidade do interior muda. E se não muda por si só, muda ao menos para você. Isso acontece de maneira irrevogável, então é preciso se acostumar, diário. E se acostumar nem sempre é se adaptar.

Tenho chegado à conclusão que a adaptação não é somente para a terra estrangeira. Talvez a mais difícil delas seja a adaptação ao seu mundo antigo, do jeito que ele é agora: novo aos seus olhos.

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“A verdadeira viagem de descoberta não consiste em procurar novas paisagens, mas em ter novos olhos” – Marcel Proust

Me adaptar a Abu Dhabi tem sido um processo lento e de muita perseverança psicológica. Aprender a gostar de um lugar onde o clima é tão adverso ao meu bem-estar físico, onde a religião é ainda pouco compreendida por mim, onde o custo de vida é muito alto, onde tive a significativa perda do Dexter… a lista é longa! Se adaptar exige um enorme esforço de otimismo para não deixar que os pontos negativos ofusquem os positivos – e devemos fazer isso diariamente. É fácil? De forma alguma. Mas eu preciso acreditar que é possível.

Por outro lado, se adaptar ao novo é surpreendente e desafiador e, a depender exclusivamente da ótica em que é observada, pode ser tornar uma grata experiência de crescimento e aprendizado. É por isso que o otimismo tem sido tão fundamental no meu processo de adaptação aos Emirados.

O que é difícil, inevitável e duradouro, é se adaptar ao velho. Àquilo que seguiu sem você… Àquilo que você nunca mais verá com outros olhos. Essa eu ainda não experimentei em sua plenitude, tenho apenas flashes de como será. E é duro.

Enquanto em Abu Dhabi eu preciso ser otimista, quando volto ao Brasil eu preciso ter aceitação. Meu país ainda é carregado de problemas que já foram solucionados por outros países, aqueles mais “desenvolvidos” em que eu já estive. Por aqui, nem sempre podemos contar com a saúde e a educação providas pelo sistema público e o que dizer sobre a sensação de insegurança que acomete a todas as classes sociais. O povo, com gloriosas exceções, ainda não aprendeu a ser cortês uns com os outros no trânsito, nas filas e nos atendimentos ao público de um modo geral. Ah, diário, e se adaptar a isso depois de ter vivenciado o oposto é muito complicado…

E voltando às perguntas iniciais, a minha resposta padrão é essa: “É complicado se adaptar a tantas mudanças de uma hora para outra. Leva tempo. Eu estou dando uma chance para a cidade… Ainda não me sinto preparada para dizer se ‘gosto’ ou ‘não gosto’. Há inúmeras vantagens, mas preciso de mais tempo para minimizar os pontos negativos – especialmente porque tivemos alguns contratempos que não estão necessariamente ligados à cidade.”

Mas quer saber? Eu sinto saudades da nossa casinha… será um bom sinal?

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Fotos: Creative Commons: martinak15, Rebrn, Ben_Kerckx

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  • lidianareis novembro 16, 2015

    Polly,

    muito legal esse texto, inclusive me lembrou um pouco sobre minha história familiar, de tios e primos que foram e voltaram, mas no fundo nunca conseguiram nem ir e nem voltar de verdade.
    Os recentes atentados em Paris me fizeram pensar, pela primeira vez, que o anonimato social e cultural do Brasil perante o mundo nos salva de tragédias assim, mas de outro lado, nos protagoniza em tantas outras cruéis mazelas. Então, não há muito para onde correr me parece, porque se vivo num país desenvolvido de uma forma não tão objetiva assim estou vivendo a custas do subdesenvolvimento histórico de outros países também e isso gera tantas outras coisas ruins que talvez nunca saberemos.
    Apesar de minhas pequenas ausências do Brasil ainda não significarem nada, já que também nunca sai da América Latina, o que me coloca sempre em lugares parecidos com aqui, a verdade é que o Brasil me indigna, mas não me cansa. Talvez não me canse porque ainda esteja jovem, sem filhos e tenha tido tantas oportunidades melhores que outros, ou talvez nunca irei me cansar, porque por mais que eu ache que não iremos ver a mudança que queremos, eu também não quero parar de acreditar que ela virá.
    De toda forma, Polly, eu entendo seu desconforto e acho que você é forte e sensível para viver e apreender coisas maravilhosas por onde estiver. E vivendo aqui, ou não, espero que consiga se manter sempre melhor que pior.
    Um beijo, Lidi

    • pollyanerezende novembro 16, 2015

      Lidi querida… Obrigada pelas lindas palavras e por compartilhar os seus pensamentos conosco. De fato, é muito complicado definir o nosso Brasil. Concordo com vc que somos um país jovem e que não há motivos para perdermos a esperança que dias melhores virão – na verdade, se observarmos bem (e com otimismo) podemos ver flashes de evolução na própria repercussão do caso de Paris – e de Mariana – nas redes sociais. As pessoas, mesmo que de uma forma meio torta, demonstram sua indignação, falam, se expõem, discutem, cobram – e tudo isso sobre assuntos sérios e não sobre novela ou futebol, como outrora. O meu desconforto, especialmente quando escrevi esse texto, é sobre as cansativas mazelas da nossa sociedade, no que se refere principalmente à corrupção, ao descaso e à violência. É triste demais. Ver o Brasil de fora, nos dá uma lente de aumento para essas coisas e, claro, nos dá uma sensação imensa de insegurança, medo e revolta.
      E, para finalizar, não precisamos esperar para ver a mudança que queremos, podemos sê-la nós mesmos, sempre, em qualquer lugar! 🙂

  • Márcia Barbosa de Souza outubro 13, 2015

    Polly, ao lei seu post à respeito de adaptação, me fez refletir se eu conseguiria adaptar tão fácil longe do Brasil, enraizada como sou, penso que sofreria muito, pois mesmo diante de tantos problemas sociais, crise econômica e política que se encontra nossa nação, acredito que sentiria mais segura permanecendo próxima à minha família, amigos, idioma, trabalho e costumes. Contudo não podemos perder a esperança em dias melhores, pessoas melhores e mais evoluídas como você. Quem sabe quando voltar a morar no Brasil encontrarás um país mais desenvolvido, onde boa parte dos problemas atuais já estarão solucionados!?

    • pollyanerezende outubro 13, 2015

      Eu gostaria muito de ter um país diferente = melhor, quando voltar. Assim espero! Mas como você disse, é preciso avaliar qual é o nosso perfil e as nossas prioridades antes de sair de mala e cuia do país. São muitas alegrias, mas inúmeros desafios também…

  • Ana Luiza Arruda outubro 10, 2015

    Também sou de Anápolis e também estou fora, já faz 5 anos que eu deixei minha casa, minha família, meus amigos… Se sinto saudades? Sim. Se voltava pra lá? Essa é uma pergunta que eu sempre faço a mim mesma. É complicado voltar a adaptar-se àquele sentimento de insegurança sempre que se sai de casa, à arrogância das atendentes de loja, supermercado, restaurante, etc. É doloroso ver um menino de rua te pedindo dinheiro e mais doloroso ainda é a gente dar umas moedinhas e todo mundo à sua volta dizer que você não deveria ter dado porque ele não vai usar o dinheiro para comprar comida. Acho que quem nunca viveu fora do Brasil, não tem consciência dos graves problemas que o país enfrenta por consequência da corrupção. O que mais me dói na verdade, é querer voltar para a minha casa e não conseguir, não me sentir capaz de aguentar toda essa pressão psicológica. Porque para mim é uma grande pressão psicológica você viver sempre alerta, com medo que alguém te assalte no meio da rua, sair para jantar e ficar com medo de voltar para o lugar onde deixou o carro estacionado e não encontrá-lo lá, ou encontrá-lo com o vidro quebrado sem o som lá dentro… Enfim. É triste, principalmente porque é a minha casa, foi onde eu cresci e construí as melhores lembranças, as melhores amizades. É lá que se encontra, o que eu nunca vou encontrar em nenhum outro lugar no planeta, a minha família.

    • pollyanerezende outubro 10, 2015

      Oi Ana Luiza, obrigada pela sua visita. É exatamente assim que me sinto… De fato, é muito triste ver o nosso país nessas condições e ficar dividida com o que o exterior pode nos proporcionar e todas as coisas que só o nosso país possui. Acho que todos que saíram do Brasil têm esse sentimento… É difícil sair, mas às vezes parece impossível voltar.

      • Marsella março 12, 2016

        Nossa me identifiquei demais com esse post!! Moro na França e achei perfeita a sua frase “O que é difícil, inevitável e duradouro, é se adaptar ao velho. Àquilo que seguiu sem você… Àquilo que você nunca mais verá com outros olhos””

        • pollyanerezende março 25, 2016

          Muito obrigada pela visita e pelo comentário, Marsella. De fato, mesmo tendo escrito esse texto há alguns meses, ainda fico muito mexida com esse pensamento. Volte sempre e beijo grande!

  • Natácia outubro 9, 2015

    Como me identifiquei. “O que é difícil, inevitável e duradouro, é se adaptar ao velho. Àquilo que seguiu sem você… Àquilo que você nunca mais verá com outros olhos. Essa eu ainda não experimentei em sua plenitude, tenho apenas flashes de como será. E é duro.” Eu acho que o ponto principal é a casa. Nossa casa é nossa fortaleza, nossa conexão com o mundo, nosso refúgio, nosso compasso diante do descompasso. Seja onde ela for, ela nos trás identidade.