Texto publicado originalmente no site Brasileiras pelo Mundo, onde faço uma colaboração mensal como colunista de Abu Dhabi.

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Enquanto planejava este artigo, comentei com o marido a respeito das coisas que levaria de Abu Dhabi para o Brasil e ele, prontamente, respondeu: o petróleo! Em segundo lugar o ouro e por aí vai. Cada um aprende a valorizar determinados aspectos do lugar onde mora e sente desejo de incorporá-los ao lugar de origem. E isso pode acontecer desde uma marca de chocolate a uma qualidade cultural do outro país.

Sabemos o quanto o Brasil ainda é jovem e carente de valores que encontramos pelo mundo afora, sejam eles valores materiais ou morais. Ainda não vivemos em uma sociedade da qual podemos nos orgulhar 100% e ainda há muito o que aprender e fazer.

Pensando nisso, escolhi alguns itens que levaria na mala de Abu Dhabi para o Brasil. Notem que essa é uma bagagem pessoal, baseada nas experiências que tenho aqui. Talvez não sejam as mesmas que você também tenha nos Emirados Árabes, ou em qualquer outro país em que resida.

1 – Segurança

Tenho certeza que já me tornei repetitiva nos meus artigos aqui para o BPM a respeito de Abu Dhabi, já que sempre friso sobre a segurança do país. Novamente, preciso incluir esse item nessa lista e na bagagem que eu levaria para o Brasil. Se pudesse, faria um enorme carregamento de segurança e distribuiria por toda a minha pátria amada.

2 – Limpeza e organização das ruas

Uma das primeiras impressões que tive ao chegar em Abu Dhabi foi a de admiração pela arquitetura e urbanismo da cidade. As ruas, em sua grande maioria, são largas, bem sinalizadas, com um asfalto impecável. Há muitas pontes, passarelas para pedestres, viadutos. Corniche, a orla principal da cidade, é belíssima! Há muitos parques, jardins e fontes, tudo muito bem cuidado e conservado. Quase não vemos pichações, casas abandonadas, terrenos baldios cheios de mato (só cheios de areia, mas limpos de todo jeito), assim como lixo no chão e a lista segue longa.

Com tanto verde e prédios modernos, nem parece que estamos no meio do deserto! Se pudesse, levaria toda essa organização para algumas cidades brasileiras carentes desse tipo de infraestrutura.

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Al Reem Island, Abu Dhabi. Foto: Renata Zagato Flickr

3 – Severidade e cumprimento das leis

Se tem algo que expatriado tem receio aqui é em relação à aplicação das leis, sejam as de trânsito ou as relacionadas ao comportamento. Todos vivemos atentos para não infringirmos as leis civis e religiosas (Sharia), pois as penas são rigorosas, não raramente culminando em prisões ou deportações.

E vocês podem estar se perguntando: “mas desde quando isso é bom?”. Bom não é, mas funciona!

Vamos focar nas leis civis: infelizmente, a maioria das pessoas ainda depende delas para serem corretas e honestas. Convenhamos, já que não é segredo para ninguém, que o povo brasileiro consegue achar brecha para tudo, não faltando desculpas para burlar a lei. Além disso, o cumprimento da justiça deixa muito a desejar, gerando um sentimento de impunidade que causa revolta em uns e “sem-vergonhice” em outros.

Não podemos esquecer que a sensação de segurança vem quase sempre atrelada ao sentimento de justiça. Por isso, levaria a severidade e o cumprimento das leis, sim, ao meu povo brasileiro. Se pudesse, colocaria na água!

4 – Orgulho nacional e patriotismo

O emiradense sente orgulho de seu país, de sua cultura e raízes. Há menos de 1 século atrás, o país (que nem era país ainda) era formado por pequenas vilas de pescadores e cultivadores de pérolas. O petróleo ainda não havia sido descoberto e as pessoas viviam de maneira humilde e pobre. Hoje, os cartões postais de Abu Dhabi e Dubai dispensam comentários a respeito de sua grandiosidade, desenvolvimento e riqueza. Mas tudo isso veio a partir de uma riqueza natural, cuja exploração soube ser muito bem aproveitada pelos governantes, especialmente o Sheikh Zayed, fundador dos Emirados Árabes Unidos e o grande “pai” dos seus conterrâneos.

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O “Pai Zayed”, fundador dos Emirados Árabes Unidos, representado em um grande cartaz em ponto estratégico de Abu Dhabi. Foto: arquivo pessoal.

O sentimento de patriotismo, amor aos seus governantes e ao seu país e respeito pela história que estão construindo são admiráveis. Não se vê um local (como os chamamos) falando mal daqui por motivos rasos, ou desrespeitando os seus governantes. E isso não ocorre por causa da censura, mas sim porque há um senso comum de admiração, respeito e amor à pátria, aos compatriotas e à cultura.

Acho louvável ver um emiradense falar de sua origem. Assim como admiro e respeito os fundadores desse lugar. Se pudesse, levaria um pouco desse orgulho nacional e respeito aos irmãos brasileiros. Sem dúvida, se os nossos governantes amassem realmente o nosso país e os nossos semelhantes, não estaríamos na situação deplorável que nos encontramos hoje de corrupção, violência e falta de respeito.

5 – Multiculturalismo

Torno a repetir: Abu Dhabi é uma cidade que abriga centenas de nacionalidades diferentes, em uma proporção bem maior que a população local – 90% são expatriados. No Brasil, esse número não chega a 1%, que certamente não estão distribuídos igualmente pelas vastidões de suas terras. Em Goiás, minha terra natal, por exemplo, a pessoa pode comumente passar a vida inteira sem ter contato com qualquer estrangeiro que resida no país.

Ao conviver com uma variedade tão grande de nacionalidades e culturas, praticamos a tolerância e o respeito ao outro. Sempre somos surpreendidos por comportamentos, hábitos e estilos que não são como os nossos e não há certo/errado, bonito/feio – é tudo uma questão de cultura! Para o Brasil, eu levaria uma boa quantia na mala de multiculturalismo para que as pessoas pudessem praticar, se não o amor, ao menos a tolerância e o respeito ao próximo, ao vizinho indiano, à professora egípcia, à manicure filipina, ao professor árabe.

 

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Eu e o esposo com as indianas colegas de trabalho dele: Indira e Hilda. Fomos convidados pela Indira para irmos ao casamento do filho dela. O noivo, indiano, casou-se com uma americana, em uma Igreja Protestante, em Dubai. Quer prova melhor de multiculturalismo do que esse? Fantástico! Foto: arquivo pessoal.

6 – Estacionamentos gratuitos

No Brasil, se você precisar ir ao shopping por 10 minutos terá que pagar (muitas vezes preços abusivos) pelo estacionamento. Quando há estacionamento público, ficamos sempre receosos pela segurança do carro (e a nossa), sem contar que somos insistentemente coagidos a pagar ao “flanelinha”, para que o mesmo “vigie” o nosso carro. Sei que isso não é exclusividade do Brasil, mas algo que eu acho muito positivo aqui é ter os estacionamentos dos shoppings gratuitos. Em alguns casos, paga-se após a 3ª hora no local. Não há flanelinhas, mas há pessoas que se oferecem a lavar o carro (sempre uniformizados e de alguma empresa específica). Os estacionamentos nas ruas podem ser gratuitos ou pagos, no formato “pague por hora e deixe o papelzinho no pára-brisa”.

Se eu queria levar isso para o Brasil? Sem dúvida! Me vê pelo menos 2 dúzias de estacionamentos gratuitos para cada cidade, por gentileza!

7 – Elementos da cultura árabe

Não posso esconder: se voltasse ao Brasil, desejaria colocar algumas dunas, uns camelos, umas músicas árabes e comidas típicas dentro da mala. Pode? Cabe?

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