11 de novembro de 2016

Cadê o aniversariante?

Querido diário, hoje nós acordamos às 10h da manhã, levantamos, tomamos o café, conferimos nossos emails e redes sociais, saímos de casa, fomos ao mercado e, depois de 3 horas voltamos para casa. Guardamos um pouco das compras, deixamos algumas coisas no chão, arrumamos um pouco da sala, mas ainda há uma dezena de coisas fora do lugar. A cama, ainda não fiz – e nem vou, porque daqui a pouco já vou dormir de novo.

Hoje é sexta feira, diário. E como já te contei, é como se fosse domingo. Amanhã será sábado, aqui e também no Brasil. O sábado não muda, é a mesma coisa. A diferença é que aqui o domingo vem antes do sábado e, depois do sábado, vem uma segunda-feira com nome de domingo.

Domingo, quando eu era criança, eu ia à missa. Depois que fiquei adulta, ia ao centro espírita. Domingo, para os cristãos, é o dia sagrado, o dia da comunhão familiar e Divina. Aqui, o dia sagrado é sexta, por isso eles não trabalham. Mas eles vão ao mosque. Aliás, eles vão todo dia ao mosque, mas sexta feira é especial.

Quando estava saindo da garagem do prédio, hoje, vi um pai com seu filho, ambos vestidos com as roupas típicas, segurando um tapetinho enrolado na mão. Logo depois, outro pai, segurando a mão do seu filho, também caminhando na mesma direção. Muito fofo, diário, eu até fiz um “ounnn”. Era por volta de meio-dia e eles estavam indo rezar no mosque. Essa é a principal oração para eles. As mulheres não vão ao mosque para essa oração, elas ficam em casa. Quando eu era criança, às vezes eu ia à missa com meu pai também, mas nunca sem minha mãe. Curioso.

Passamos em um posto de gasolina, pagamos uma mixaria para encher o tanque e, logo na saída, pegamos um “congestionamento de homens” na rua, saindo do mosque. Sabe quando você passa na porta de uma igreja logo que acabou a missa/o culto? É a mesma coisa, só que só com homens.

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Homens saindo da mesquita na sexta feira. Foto: arquivo pessoal

Na rua, um monte de enfeites na cidade. De natal? Não, de comemoração pelo aniversário do país. As cores? Verde, vermelho e branco. Eu te entendo, diário, dá para pensar mesmo que é natal, só que não é, me desculpe. Ano passado eu também achei que era natal, afinal, quem não gosta de natal? Agora já sei do que se trata e este ano, mais uma vez, não vamos ver as ruas enfeitadas. Mas eu prometo que na nossa casa vai ter árvore e pisca-pisca, tudo bem?

No Carrefour, diário, tem natal. Havia uma seção gigante, toda vermelha e dourada, cheia de enfeites natalinos e muito, muito chocolate. Quando cheguei perto, vi que era o natal da Lindt, uma marca de chocolates. Isso explica. Eu vi árvores de natal, vi bolas de enfeite, vi pisca-pisca, vi chocolate, mais chocolate, um pouco mais de chocolate, vi cartão de natal e vi uma manjedoura vazia.

Vazia.

VA-ZI-A

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O choque da manjedoura vazia. Foto: arquivo pessoal

Onde está Jesus, diário? Os enfeites e os doces da festa eu estou vendo, mas cadê o aniversariante?

Jesus nasceu em dezembro, assim como os Emirados Árabes. Em dezembro, Jesus vai reunir milhões de pessoas em seu nome; aqui, os Emirados Árabes também farão milhares irem às ruas comemorar sua data de criação. Eu gosto de ver as bandeiras do país espalhadas pelas ruas e me felicito pelos anos comemorados do país em que vivo, mas cadê Jesus? Nem na manjedoura?

Jesus foi um cara esperto, ele sabia que ia dar zebra, por isso, ele precisava garantir a sua presença dentro de nós, não em imagens, não em símbolos, muito menos em ritos. Ele veio, viveu, sofreu, morreu e ensinou. Eu estou tentando aprender. Na verdade, aqui, aprendi muito mais: o aniversariante estará comigo no dia do seu aniversário, em cada sorriso, em cada gesto de amor, em cada prato carinhosamente preparado para comemorarmos seu aniversário. Ele fez morada em meu íntimo e isso me permite, aonde quer que seja, que O leve junto de mim e o que o permita renascer todos os anos.

Continuamos as compras no mercado e logo nos lembramos do outro grande aniversariante do mês: o país em que vivemos. Para isso, uma grande seção também dedicada aos enfeites da festa. Um país que vai completar 45 anos e que saiu de uma situação de quase miséria para um dos mais ricos do mundo e que oferece uma qualidade de vida ímpar para o seu povo, sim, eles têm muito o que comemorar. Eu fico feliz também por esse aniversário.

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Seção em comemoração ao aniversário do país, que será em dezembro. Foto: arquivo pessoal

Aqui, os Emirados Árabes e seus símbolos estão por toda parte da cidade: há bandeiras gigantes nos prédios, ruas, carros… Os enfeites natalinos também podem ser comprados sem dificuldade: renas, ursos polares, papais noéis, árvores e luzes. Símbolos religiosos relacionados à data, porém, são escassos. Ano passado, não achei presépio para comprar. Este ano, já encontrei um junto de outros bibelôs em uma loja que vende artigos indianos. Depois preciso voltar lá, diário.

E por falar nisso, deixa eu te contar como essa história terminou: caminhando para o final das compras, enquanto passava pela seção de verduras, notei um objeto peculiar entre as verduras orgânicas: um presépio! Isso, diário, um presépio com tudo que tem direito: manjedoura, Maria, José, o menino Jesus e até uma ovelhinha compondo a cena fantástica das nossas tradições. A peça não possuia etiqueta de preço nem nada. Não sei se estava à venda. Não entendi o que estava fazendo lá. Só sei que estava, assim, no meio das verduras. Jesus orgânico, assim o chamamos.

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Nosso Jesus orgânico. Foto: arquivo pessoal

Jesus orgânico, Jesus vivo, Jesus simples, Jesus saúde. Ah, diário, não poderia haver metáfora melhor. Em 3 horas no supermercado eu vivi a crise do manjedoura vazia, a constatação da importância dos aniversários e, por fim, o mistério resolvido de onde se encontrava o aniversariante. Triunfal!

Agora, posso encerrar meu dia em paz. Boa noite, diário, jajá vou dormir. Hoje não é domingo de verdade, então, não vai ter reza especial e nem Evangelho no Lar aqui em casa. Domingo (domingo mesmo), mesmo que seja segunda feira vai, sim, porque algumas coisas a gente simplesmente não consegue mudar nunca. Não é?

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  • […] de Jesus. Embora seja triste não ser contagiado pela magia que cerca essas datas (já até fiz um artigo aqui especificamente sobre isso), também não somos afetados pelo bombardeio consumista que há em […]

  • Keyla Guedes janeiro 26, 2017

    Dei risada e me emocionei com esse post, encontrado totalmente ao acaso… quer dizer, acho que foi providência divina! 🙂 Adorei.

    • Pollyane
      Pollyane janeiro 27, 2017

      Oi Keyla, obrigada pela visita, mesmo que ao acaso, e pelo comentário. Volte sempre 🙂 Beijo

  • Lari linda novembro 11, 2016

    Emocionada com esse post! Cada dia te admiro mais [2]!

  • Renata Zagato novembro 11, 2016

    Que post lindo! 🙂

  • Marly novembro 11, 2016

    Cada dia te admiro mais! Parabéns para você também!