Quem já viu o filme “The Bucket List” (Antes de Partir, 2007) com os incríveis Jack Nicholson e Morgan Freeman, lembra da cena em que Morgan conta a Jack que o seu tão apreciado café luwak é feito com grãos defecados por um animal em Sumatra. Desde então, eu soube da existência desse café, mas nunca imaginei que fosse de fato prová-lo algum dia, pois a combinação de “Sumatra”, “café mais caro do mundo” e “cocô” estavam longe da minha bucket list, ou lista do desejos.

Se você ainda não viu o filme, recomendo muito que assista! Vai um trechinho dessa cena que acabei de citar para dar um gostinho:

Café Luwak na Indonésia

Mas a vida é cheia de pegadinhas e de repente me vi na Indonésia, país do qual Sumatra faz parte, e apesar de não ter visitado essa ilha, estava em Bali, onde também há grande produção e comercialização do café luwak.

Um dia, após visitar um templo hindu, nosso motorista nos levou a uma “fazenda” (entre aspas, porque é bem pequena e eu chamaria mais de “chácara”) de café luwak, apenas um dentre vários lugares que mostram como é produzido o famoso café. Nos interessamos imediatamente pelo passeio, pois nunca havíamos visitado nada parecido e também porque já estávamos ali, na porta da propriedade.

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Na propriedade dos luwak, em Bali. Foto: arquivo pessoal

Bom, ao chegarmos, fomos recepcionados por uma simpática balinesa que passeou conosco pela mata fechada, nos apresentando as diferentes variedades de pés de café, bem como outras plantas típicas da região (foi a primeira vez que vimos um pé de baunilha!). Para a nossa total surpresa, nos deparamos com um civeta, o bendito animal responsável pelo café mais caro do mundo, dormindo tranquilamente embaixo de uma árvore. Uma pausa para falar sobre o civeta:

Um pouco sobre o civeta

Civeta é o nome dado, em português, aos mamíferos da família Viverridae que habitam a África, Ásia e sul da Europa. São carnívoros, arborícolas e de hábitos noturnos. Eles lembram uma raposinha. Luwak é, na verdade, o nome dele em indonésio e é essa a razão da expressão “Kopi Luwak”, que quer dizer café + civeta nessa língua.

O que faz do café tão especial é que o civeta é capaz de selecionar os melhores grãos para sua ingestão, além disso, a mistura de ácidos e enzimas do animal dão ao grão do café um sabor único, que passa por uma fermentação natural dentro do trato digestivo do bicho.

Hmmm deu fome aí?

O grão passa pelo tubo digestivo do animal e sai pelas fezes intacto, pois somente a polpa é digerida. Depois disso, ele é moído para fazer o café.

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Cocô de civeta com grãos de café. Foto: CC

Nossa visita à fazenda de Café Luwak

Depois de acariciar aos montes o bichinho sonolento (obviamente, porque era dia e o bicho tem hábito noturno), continuamos alegremente a nossa visita pela propriedade e vimos todo o processo de como é feito o café. Em seguida, fomos para a área em que teríamos uma degustação de chás e cafés produzidos no local. A degustação era gratuita, mas se quiséssemos provar o café luwak, teríamos que pagar à parte. O valor era de 50 mil rúpias indonésias por 1 xícara (cerca de R$ 12,00).

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Civeta sonolento. Foto: arquivo pessoal

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Degustação de chás e cafés balineses. Foto: arquivo pessoal

A degustação foi maravilhosa, adorei a maioria dos chás e cafés. Obviamente, pedimos o café luwak, que veio acompanhado de chocolate orgânico produzido na propriedade. O chocolate estava delicioso e o café, embora tenhamos que abstrair a sua origem, também é muito bom! A combinação do café (sem açúcar, né gente, por favor) com o chocolate era perfeita!

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O café luwak e o chocolate orgânico. Foto: arquivo pessoal

Tomamos os chás e cafés e decidimos comprar um pacote para trazer para casa e oferecer aos amigos sem contar a origem. No caminho para a lojinha, porém, o passeio que estava super agradável ficou triste e pesaroso: alguns civetas estavam presos em gaiolas minúsculas. Ficamos indignados com isso e questionamos à mocinha balinesa sobre aquilo. Ela disse que eles ficam presos durante o dia, mas que precisam ficar soltos para comer, já que a qualidade do café também depende da “escolha” dos grãos feitas por eles.

Não acreditamos muito na história e temos certeza que ela só nos disse isso para que ficássemos mais tranquilos. Nesse momento – eu sei, demorou muito – é que percebi a exploração pela qual passam esses animais e a vida miserável que muitos têm. Como não foi um passeio que planejei previamente e não estava em nosso roteiro, não havia lido nada a respeito e jamais imaginei que teria contato com o bicho e muito menos que eles vivessem nessas condições.

O café luwak

Antes de abordar a questão do civeta preso, que é um grande motivador desse artigo, vou falar sobre a experiência de tomar o café luwak. Sobre isso, surpresa, não há nada em especial para falar. Sim, é isso mesmo! O café luwak é bem bom, mesmo, mas jamais pagaria os 95 dólares por uma xícara dele “só para provar”. Ele é um café bom, assim como há cafés bons que não saíram do fiofó de um bichinho. Portanto, a não ser que você seja um grande apreciador da bebida, não acho indispensável tomar esse café em sua visita à Bali, ou em qualquer outro lugar que a ofereça.

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Provando o café luwak pela primeira vez. Foto: arquivo pessoal

Os que possuem um paladar mais refinado dizem que o café luwak é menos ácido e amargo que os cafés comuns e que o sabor lembraria uma mistura de “chocolate e suco de uva”. O valor absurdo cobrado por ele (1 kg pode chegar a custar 400 dólares nos Estados Unidos) é devido à pouca oferta do produto. Lembrando que não basta “colher” os grãos do pé, mas recolher as fezes dos animais que se alimentaram desses grãos. Complicado e raro, e por isso caro também. Obviamente, nos países onde ele é produzido o custo não é tão elevado. Em Bali, é possível comprar o quilo do café luwak por beeeem menos.

Se eu tive nojo? Não. Se eu tomaria de novo? Sim, sem problemas (não pagando preços absurdos, claro). Se tem gosto ou cheiro de cocô? Não, de modo algum.

A lição que fica do café luwak

Depois da visita e quando já estávamos novamente com internet, fomos pesquisar sobre o café luwak e os civetas. Há diversas reportagens sobre a exploração e os maus tratos a esses mamíferos. Confira uma delas aqui. Felizmente, os que vimos estavam com boa aparência, sem sinais de doenças ou ferimentos, mas sabemos que são animais silvestres e que deveriam estar soltos na natureza. É triste. Há algumas propriedades que produzem o café a partir das fezes de animais soltos – se eu soubesse antes como seria a visita, teria me programado para visitar uma dessas.

civeta cafe luwak

Civetas presos em gaiolas. Foto: arquivo pessoal

A experiência de visitar uma propriedade rural balinesa, conhecer as frutas que eles produzem por lá, ver como é a fabricação do café (bem artesanal) e a própria degustação dos chás e cafés, incluindo o luwak, foi muito boa. Porém, entretanto, todavia, o fato de ver o bicho engaiolado partiu meu coração e me fez repensar se é válido ou não. Assim como também não pago para ver bichos engaiolados em zoológicos, também me senti mal por ver os civetas presos. Precisamos nos informar e avaliar se a experiência inclui algum tipo de sofrimento animal antes de aceitá-la.

Como expliquei antes, não era uma atividade que programamos e por isso não fazíamos ideia de como seria. Infelizmente, mudar o modo de vida de um povo, no caso os balineses, não nos é possível, mas podemos colaborar não financiando esse tipo de turismo que explora os animaizinhos. Concordam comigo? Bom, foi por isso que fiz esse artigo contando da nossa experiência: para que você se informe e pense se esse “passeio” vai de acordo com os seus princípios e se você não vai se sentir mal por saber que estará contribuindo, mesmo que indiretamente, com a exploração animal.

Por fim, a dica que eu dou é: evite essas propriedades que exploram os animais e procure alguma que não os deixa em gaiolas. É melhor para todos, acredite!

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  • Renata Suzart maio 3, 2017

    Que post bacana e super interessante! Adorei saber de todas esas infos!