16 de agosto de 2015

Florescer

Meu querido diário,

Gostaria de justificar a minha ausência nos últimos dias. Sabe aqueles momentos em que o seu mundo vira de cabeça para baixo e você ainda está tentando sair dos escombros? Foi isso que aconteceu…

O Dexter estava doente há algum tempo. Para ser mais precisa, desde a véspera da viagem para cá. Entre idas e vindas ao veterinário, vários remédios e muito amor, ele não resistiu e acabou virando uma estrelinha linda no céu. É imensuravelmente difícil falar sobre isso, mas é preciso. Eu preciso.

Há tantas coisas na vida que não se pode mudar. Tantas escolhas que fazemos que não podemos voltar atrás. Nada pode trazê-lo de volta, eu sei. Nada pode me levar ao passado e tentar outro tratamento para ele, eu sei. E não chamo isso de conformismo, chamo de aceitação e fé. É preciso coragem para tomar um caminho, assumir as rédeas e seguir nele até o fim. E é preciso fé para ter certeza de que esse seria o melhor caminho possível, mesmo que haja dor.

Ah, diário, e como dói…

Ver o lado bom das coisas não faz de você somente um otimista, te faz cristão e te traz paz. A dor edifica a alma e ensina ao espírito. Sem dor não há começo. Nascer dói, morrer também. O que ocorre nesse meio tempo são oportunidades para que possamos aprender, principalmente pela dor.

A gente pode até não conseguir mudar os fatos, mas somos inteiramente responsáveis pelos sentimentos que geramos e, mais importante, pelo que fazemos com isso. Eu escolhi ter fé em vez de blasfemar; saudade em vez de revolta; e amor para curar a dor.

No momento em que o Dexter deu seus últimos suspiros, nos meus braços, eu percebi o quanto estava sendo incoerente a minha vida toda. Ao segurar aquele ser tão amado e sem vida, decidi que não gostaria e não poderia ser responsável pela morte de nenhum outro animal. Não é certo… Isso não vai de acordo com o que eu acredito. Eu não posso amar tanto a alguns animais e me alimentar de outros. De repente, isso passou a fazer todo o sentido! Eu estava cega, mas agora vejo.

A dor ensina e eu não quero passar a vida fugindo dela, mas sim quero aprender com ela todas as vezes que ela cruzar o meu caminho. O aprendizado verdadeiro é aquele que te transforma, de dentro para fora e de fora para o mundo. Não posso mudar os fatos e não mudei os meus princípios, só estou indo de acordo com eles agora.

Não me alimentar de animais não diminui a minha tristeza, mas aquieta o meu coração. Saber que nenhum outro animal morreu, desde que o Dexter se foi, para que eu me alimentasse, me traz um alento e, de alguma forma que eu ainda não se explicar, me diz que estou no caminho certo. O meu corpo físico agradece e o meu espírito ainda mais.

Incrível como também precisamos da chuva para florir. A terra não se revolta porque a chuva a alagou, em vez disso, ela se modifica e retorna em flores.

Que floresçamos, diário, que floresçamos.

 

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Foto: arquivo pessoal

 

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  • […] comer carne quando já morava em Abu Dhabi. Apesar de ter sido uma decisão abrupta, baseada em uma situação traumática relacionada à vida/morte animal, nunca sofri com a nova dieta. Eu transformei a mente antes do corpo; acho que essa é a chave. […]

  • Maria Tereza setembro 30, 2015

    Ó meu Deus, seu Dex morreu!! que noticia mais triste. Lindas as sua papalvras. Meus sentimentos pela perda. Sei como deve estar, pois esses filhotes são como filhos, amorosos e companheiros. Mas Deus sabe o que faz. bjo