Se eu ando sumida aqui do blog, vocês já podem supor que o motivo está explicado no título desse artigo. Sim, virei mamãe! E a vida de mãe expatriada que mora longe da família é bem complicada… Mas vamos conversar sobre isso em outra ocasião. Hoje, vou falar para vocês um pouco de como foi minha experiência como gestante em Abu Dhabi, bem como do parto.

Não custa lembrar: essa é a minha experiência pessoal, o que não quer dizer que seja a realidade de todas as pessoas que engravidam e têm filhos por aqui.

Gravidez em Abu Dhabi

Já falei em outros artigos que muitos casais decidem ter filhos em Abu Dhabi. Das minhas amigas, quase todas já tiveram filhos aqui nos últimos anos. Fatores como a segurança financeira proporcionada pelo cônjuge que trabalha, a maior disponibilidade da mãe em ficar com o filho em casa, a “facilidade” (entre aspas porque é fácil mas é caro) de se contratar uma babá, inclusive que more com você, os vários hospitais e profissionais da saúde que, de modo geral, pelo menos na minha opinião e experiência, são bons e competentes, e, finalmente, a cultura do país que é muito voltada para a família e facilita a vida de quem tem filhos pequenos.

Pensando em tudo isso e outras várias questões particulares, marido e eu decidimos aumentar a família em terras árabes.

Engravidei em dezembro de 2017. Em janeiro de 2018, iniciei o meu pré-natal no hospital Danat Al Emarat Hospital for Women and Children com o Dr. Marwan Munir Kamil, com quem eu já havia me consultado anteriormente e também possuia indicação de várias brasileiras, inclusive a minha amiga Renata que também estava grávida na época.

A escolha do hospital e do médico vai depender da cobertura do seu plano de saúde. Há vários hospitais e maternidades na cidade e, embora uns sejam mais conhecidos e indicados, nunca ouvi dizer de algum que devemos evitar. Quanto ao profissional, é sempre válido procurar pessoas que tiveram experiências com ele e, caso você não se identifique com o médico ou o hospital, não há problema em escolher outros.

Diferente do Brasil, onde temos uma relação mais “íntima” com o médico, aqui ela é mais distante e profissional. As consultas eram super rápidas (algumas duraram, literalmente, 2 minutos) e se eu falasse que estava tudo bem, ele não se alongava no assunto. Podemos dizer que são consultas mais práticas, objetivas. Pessoalmente, não achei ruim esse tipo de consulta. Prefiro ter um médico bom e competente a um médico amigo. O meu médico sempre me passou muita segurança e qualquer reclamação ou dúvida que eu tinha ele me esclarecia muito bem. Nunca tive o número do celular dele e, caso acontecesse alguma emergência, o hospital fica aberto 24h e com obstetras de plantão. Se fosse necessário, o chamariam, mas eu provavelmente seria atendida apenas por quem tivesse lá na hora.

Aqui há obstetras homens, mulheres, de várias nacionalidades e falantes de várias línguas. Para quem tem dificuldade com a língua inglesa, há profissionais que falam espanhol e até mesmo uma obstetra brasileira, a Dra. Raquel Loja Vitorino. Embora a cultura local seja mais pudica e conservadora, não notei que isso foi um problema durante a gestação e o parto. Sempre fui tratada de forma muito natural e respeitosa por todos os profissionais que me atenderam.

Pelo que observei, o pré-natal aqui é feito de forma semelhante ao Brasil. Fazemos vários exames de sangue, consultas mensais (e mais no final da gestação semanais), fazíamos ultrassom em todas as consultas, já que no consultório do médico havia um aparelho. É sempre permitido que o pai ou outro acompanhante esteja com a gestante durante as consultas e exames, apesar de que a sala de espera da maternidade é separada (homens de um lado, mulheres de outro), o que é comum a todos os hospitais e outros lugares públicos aqui. Todos os exames que eu precisei fazer durante a gestação foram realizados no mesmo hospital. Não era necessário marcar ultrassom em um lugar, fazer exame de sangue em outro, o que facilitava muito pra mim. Essa facilidade também era importante para que a gestante pudesse ser avaliada por qualquer médico do hospital, já que ficava registrado na nossa ficha no sistema.

Nos Emirados Árabes, não é comum ou fácil fazer exame de sexagem fetal. Existe um exame super complexo, onde são avaliadas as possibilidades de síndromes e doenças, mas que só é coberto pelos planos de saúde caso haja indicação médica para fazê-lo. Uma amiga resolveu pagar por conta própria para saber qual é o sexo do bebê, mas, de quebra, ainda recebeu uma avaliação super detalhada sobre a saúde do feto. O exame é feito em Dubai (colhe o sangue aqui e envia para lá) e o resultado sai em poucos dias. Meu médico ficou sem entender por que eu fiz um exame de sexagem no Brasil apenas para saber o sexo do bebê. Para eles realmente não faz sentido, a menos que sejam investigadas outras questões. É apenas uma diferença cultural mesmo.

Falando em Brasil, viajei para lá quando entrei no 4º mês de gestação com autorização do meu médico. Por precaução, sempre se consulte com o seu médico sobre viagens longas e pegue com ele um documento que te autorize a voar, pois a cia aérea pode exigir. Outros cuidados importantes que a gestante deve observar é se hidratar bastante durante o voo, usar meias de compressão e não ficar mais que 2h sentada. Se puder voar na classe executiva, melhor ainda. Infelizmente, não foi o meu caso nessa viagem para o Brasil. Uma dica que eu dou é carregar sempre um paracetamol, já que é praticamente o único remédio que podemos tomar quando estamos grávidas, e vários lanchinhos para o voo, especialmente se você sofre de enjoos.

Veja também: Babymoon nas Maldivas

Ao contrário do Brasil, em Abu Dhabi gestante não tem fila preferencial, pessoas com crianças pequenas também não. Na rua, as pessoas são simpáticas com grávidas, mas não tanto quanto no Brasil, acredito eu. Aqui tem muita mulher grávida e criança pequena, não é exatamente “novidade”. Ouvi de algumas grávidas que no Brasil é comum pessoas desconhecidas chegarem e pegarem na sua barriga, isso aqui nunca me aconteceu! O contato físico aqui é algo muito íntimo, então nem imagino uma pessoa na rua fazer algo assim. De novo: minha experiência!

Aqui também não acontece de a pessoa perguntar tantos detalhes da gravidez – e que isso já sirva de alerta para os brasileiros que moram aqui: não façam isso com outras pessoas. Em muitas culturas, não é comum saber o sexo do bebê antes do nascimento ou mesmo falar o nome escolhido pelos pais, por exemplo. Famílias numerosas também são comuns, então não se assuste se vir uma mulher relativamente nova grávida, com um bebê no colo e outros na barra de sua abaya. Para a cultura local, em muitos casos, a gravidez não chega a ser uma escolha do casal, mas sim uma continuação compulsória do casamento. E quantos mais filhos, melhor. Para eles, é bênção! (pra gente também, mas o difícil é bancar, né? Hehe). O que eu ouvia bastante quando estava grávida é “é o seu primeiro filho?”. E a primeira coisa que ouvi da médica que constatou a minha gravidez, através de uma ultrassom, foi: “Inshallah! Que Deus te abençoe.” Foi um momento muito importante e muito bonito da minha gravidez em Abu Dhabi.

Olhando a coisinha mais linda do mundo e um papai super sério do lado. Foto: arquivo pessoal

Parto em Abu Dhabi

Tive parto normal, com analgesia, no dia que entrei na 40ª semana de gestação. Quando estava com 39 semanas e 2 dias meu médico fez o descolamento das membranas, daí terminei de perder o tampão, depois começaram as contrações dolorosas mas irregulares, e um dia antes do parto me internei para acompanhar o progresso do trabalho de parto, que por sinal não evoluía, embora eu sentisse muita dor. No dia mesmo do parto, pela manhã, romperam a minha bolsa, depois me deram analgesia, colocaram ocitocina e, por fim, pari!

Dei esse brevíssimo relato de parto para que vocês saibam que não foi um parto “simples”, foi “comum”, mas não foi rápido, indolor ou 100% descomplicado. Minhas contrações paravam todas as vezes que eu chegava no hospital e a dilatação não aumentava mais. E mesmo com tudo isso, em NENHUM momento, eu ouvi a palavra “cesárea”. O Brasil possui taxas alarmantes de cesáreas, uma das maiores do mundo, e por isso é muito natural que as pessoas acreditem que precisam fazer uma cesárea, embora nem sempre haja recomendação médica para isso. Digo isso porque, no meu caso, se tivesse sido no Brasil, com toda a certeza teriam me encaminhado para uma cesárea – desnecessária, já que meu filho nasceu de parto normal e estamos ambos muito bem.

Cesáreas eletivas aqui são incomuns, mas, claro, acontecem. Tenho amigas que optaram por ter a cesárea agendada e tudo certo também, é uma opção delas e o médico consentiu. A diferença é que aqui o médico não tenta enganar a paciente, levando-a a realizar um procedimento cirúrgico sem necessidade. Se você deseja ter uma cesárea, ok, mas eles farão de tudo para que o parto seja o mais natural possível. Observem, eu disse natural, ou seja, sem analgesia e com o mínimo de interferências possíveis.

Outro motivo pelo qual eu fiz o relato de parto é para que vocês observem a quantidade de procedimentos realizados para que o parto fosse normal. Todos esses procedimentos foram esclarecidos previamente pela equipe médica e consentidos por mim. Nada, nem em mim e nem no recém-nascido, era feito sem explicação e autorização. A analgesia, inclusive, deve ser pedida pela gestante e devemos assinar um termo de responsabilidade para que ela seja administrada.

O parto foi realizado pela médica que estava de plantão no momento. O meu médico me visitou pela manhã (o parto foi no final da tarde), mas ele não voltaria para fazer o parto, a não ser que eu tivesse que ser encaminhada para uma cesárea. Para muitas mulheres, compreendo, não ter o parto realizado pelo médico que fez o pré-natal pode ser um problema. Mas, para mim, não foi. A médica que me atendeu, juntamente com a midwife que está sempre conosco, fizeram um ótimo trabalho e me passaram muita segurança. Eu já sabia que seria assim: se desse sorte de ser o meu médico no plantão, ótimo, se não, seria quem estivesse lá.

O meu parto foi acompanhado pelo marido e por uma querida amiga, que teve a generosidade de fotografar esse momento único em nossas vidas. Durante o expulsivo, pedi que não fosse feita episiotomia e que o marido pudesse cortar o cordão umbilical, ambos os pedidos foram atendidos. Logo que ele nasceu, veio direto para mim, fazer o contato pele a pele, e só depois foram pesar, medir e fazer as avaliações. A amamentação também foi estimulada desde o nascimento, embora não tenha sido uma experiência positiva, a princípio, mas isso fica para um outro artigo.

Quando fazemos o curso de gestante no hospital que escolhemos para fazer o pré-natal e o parto (muito bom o curso, diga-se de passagem, não deixem de fazer, papai e mamãe), recebemos um plano de parto que deveríamos preencher e entregar no momento da internação. Nele, você coloca os seus desejos, como o fato de ter ou não episiotomia, de receber analgesia, de ter acompanhante durante o parto, de o bebê receber vacinas etc. Dessa forma, toda a equipe que irá te atender estará ciente das suas escolhas e minimizará a chance de que algo seja feito contra a sua vontade, menos ainda sem o seu consentimento, a você a ao seu bebê.

Quando fui internada, um dia antes de ele nascer, já fiquei na sala que seria a de parto. Aqui vai de cada hospital e plano de saúde, mas no meu caso era um quarto individual e confortável. Depois do parto, fomos para o quarto, também individual, por onde fiquei 2 noites. As refeições do hospital eram muito boas e havia uma cama extra para o acompanhante. Éramos assistidos o tempo todo, o bebê e eu, por médicos, enfermeiras e o que mais precisássemos.

Felizmente, tive uma gestação saudável e um bom parto. Sempre me senti bem assistida e não, não tive medo de parir em outro país, longe da família, em outro idioma, em outra cultura. Sempre digo que é muito importante as mulheres se empoderarem e buscarem se informar exaustivamente. Procurar um médico em que confie e ter uma pessoa ao seu lado que apoie as suas decisões também são fundamentais. No mais, independente de ser em um bom hospital nos Emirados Árabes, como foi meu caso, ou um parto domiciliar no interior do Brasil, gravidez e parto fazem parte da nossa natureza e carregamos muitos anos de evolução para que seja um processo natural, normal. Não permita que tentem te convencer do contrário.

Ah, e também não se esqueçam: cada caso é um caso, cada gravidez é única, cada bebê é de um jeito e cada mulher sabe o que é melhor para si e tem todo o direito de lutar por suas escolhas. Se você irá engravidar e parir aqui nos Emirados Árabes, procure recomendações do hospital e dos médicos e fique confiante que dará tudo certo. Bebês nascem em todos os lugares do mundo – e aqui, você já deve ter percebido, o que não falta é mulher grávida e criança! Hehe.

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