Imagine conhecer uma vila que possui língua, religião, arquitetura e costumes únicos. Onde a maioria nunca saiu dali e não sabe como é o mundo “lá fora”. Bom, felizmente, ainda há lugares assim no mundo, onde o tempo parece ter parado, e tivemos a sorte de conhecer algo desse tipo em uma vila tradicional em Lombok, a ilha indonésia vizinha a Bali.

A vila que visitamos se chama Sade e lá vivem os “sasak“, o povo de Lombok. Estima-se que 85% da população da ilha seja sasak. Eles são “primos” dos balineses, mas diferem desses em língua e religião. Antes da chegada do Islã na ilha (final do século XVI), a religião oficial desse povo era a Bodha, hoje, é uma mistura de 2 religiões, como nos foi explicado pelo guia da vila.

Vila Sasak Sade, Lombok

Entrada da vila Sasak Sade, Lombok. Foto: arquivo pessoal

Visita à vila Sasak Sade, em Lombok

Fomos até Sade de carro, com o motorista que contratamos pelo nosso hotel em Lombok. Além dessa vila, há outras vilas tradicionais sasak na ilha. Inclusive, vi opções de roteiros que passam por várias vilas e aldeias tradicionais. Se você tem interesse nesse tipo de turismo, acho que vale a pena separar 1 dia inteiro para ver esse lado da vida em Lombok.

Ao chegarmos na vila, fomos recepcionados por um guia local, que nasceu e mora lá e que fala inglês muito bem. Alguns indivíduos da vila foram treinados para serem guias, o que é muito bacana, pois eles podem divulgar um pouco de sua cultura e fazer uma renda extra, com a venda de artesanatos e as gorjetas dos turistas.

guia sasak lombok vila tradicional sade

Nosso guia sasak. Foto: arquivo pessoal

A vila não é simplesmente uma atração turística. As pessoas, no caso os sasak, moram lá há muitos anos. Ele até nos mostrou a residência mais antiga da vila e, segundo ele, ninguém sabe ao certo qual a sua idade (talvez 300 anos? ou mais?). Atualmente, cerca de 700 pessoas moram na vila, todos sasak.

Vila Sasak Sade, Lombok.

Vila Sasak Sade, Lombok. Foto: arquivo pessoal

A arquitetura da vila e das casas é bem peculiar. Não vi “ruas” e nem “calçadas”. As casas são muito próximas umas das outras, com muita madeira, telhados de palha e “cimentadas” com argila e esterco. Isso: fezes bovina… Nós, inclusive, tivemos a sorte de ver eles utilizando o que eu pensei ser um “cimento verde” na manutenção de uma casa. Na casa, há 2 cômodos: no primeiro, dorme o casal, no segundo, é a cozinha (há outros pormenores, mas eu não me lembro mais 🙁 ) De todo jeito, caso você tenha a oportunidade de visitar, poderá visitar o interior de algumas casas e ter explicações ali, em tempo real.

Vila Sasak Sade, Lombok.

Vila Sasak Sade, Lombok. Foto: arquivo pessoal

casa sasak

Casa sasak. Foto: arquivo pessoal

Vila Sasak Sade, Lombok.

Vila Sasak Sade, Lombok. Foto: arquivo pessoal

cimento de esterco

“Cimento” de esterco. Foto: arquivo pessoal

Interior de uma casa sasak.

Interior de uma casa sasak. Foto: arquivo pessoal

Interior de uma casa sasak

Interior de uma casa sasak. Foto: arquivo pessoal

Interior de uma casa sasak.

Interior de uma casa sasak. Foto: arquivo pessoal

Além das casas, há os “lumbung“, em um formato muito presente em toda a ilha de Lombok e que, nesse estrutura da foto abaixo, é um celeiro de arroz.

lumbung sasak arroz

Lumbung sasak. Foto: arquivo pessoal

Vimos também o templo religioso da vila (esse da foto abaixo). O guia nos explicou que a religião deles é única, uma mistura de Islamismo e Animismo chamada Wetu Telu, que quer dizer “rezar 3 vezes ao dia” (muçulmanos rezam 5 vezes ao dia). Quem quiser saber mais sobre a religião, pode ver nesse artigo.

templo wetu telu

Templo Wetu Telu, em Sade. Foto: arquivo pessoal

No horário que visitamos Sade, não havia nenhuma apresentação artística. Pelo que pesquisei nos blogs gringos, é possível ver uma apresentação de dança e teatro sobre a cultura local e pareceu bem interessante. O que fizemos por lá foi percorrer pelos corredores entre as casas, entrar em algumas delas, observar a vida local, como são feitos os tecidos típicos e ouvir as explicações do guia.

Inclusive, sobre os tecidos, um importante aspecto cultural e econômico da vila, tenho umas coisas a dizer: primeiro, que todas as mulheres da vila aprendem a tecer, pois é dito que só se pode casar depois que se aprende. Segundo, no tour você vai ver todo processo de fabricação da linha de algodão a partir do fruto até a etapa final, que é o produto pronto e exposto. Terceiro, você já gastou um dinheiro indo até uma vila tradicional em Lombok, nos confins da Ásia, e tenho certeza que tem dinheiro para comprar um tecido feito lá. Não fomos coagidos a comprar nada, mas compramos mesmo assim porque gostamos (de verdade!) dos tecidos e porque é uma forma de retribuí-los por abrirem as portas da vila e das casas para que nós pudéssemos conhecer a sua cultura e modo de vida. O dinheiro que deixamos lá será muito útil para esse povo, que como vocês podem ver pela simplicidade nas fotos não são abastados. Ah, mais um quarto ponto: negocie, pois faz parte da negociação local, mas não abaixe demais o preço. Pense que cada centavo faz mais diferença para eles que para você.

tecer sasak

Mulher sasak tecendo. Foto: arquivo pessoal

fios de algodão sasak

Mulher sasak produzindo fios de algodão. Foto: arquivo pessoal

Recado dado, vamos voltar ao papo leve sobre Sade. Um fato curioso – talvez o mais, vou confessar – que ouvimos do nosso guia é que praticamente todas as pessoas da vila são da mesma família, pois eles se casam entre primos. E a parte mais curiosa: para que o casamento aconteça, a noiva deve ser raptada pelo noivo. Ele deve planejar tudo: como roubá-la de sua casa sem que ninguém perceba e fugir com ela para outro lugar. Apesar de não ser algo “bem visto” no Ocidente, essa é a prática comum entre eles pré-casamento, e existem acordos para que seja feito da maneira correta. Se o “sequestro” correr bem, ambas as partes discutem como será feita a cerimônia de casamento.

Vila tradicional sasak Sade, Lombok

Vila tradicional sasak Sade, Lombok. Foto: arquivo pessoal

Vila tradicional sasak Sade, Lombok

Vila tradicional sasak Sade, Lombok. Foto: arquivo pessoal

Vale a pena ir na vila tradicional sasak Sade em Lombok?

Adoramos a nossa visita à vila sasak Sade e recomendo muuuito que você também faça esse passeio. Vale a pena demais! Como citei anteriormente, pode ser combinado com outras vilas tradicionais, ou você pode simplesmente pegar um transporte e ir até lá. Nós fomos no final do dia, depois de ter feito um tour pelas praias do sul de Lombok.

Vila tradicional sasak Sade, Lombok.

Vila tradicional sasak Sade, Lombok. Foto: arquivo pessoal

Ainda sobre a visita: não me lembro exatamente se tivemos que pagar para entrar, mas o fato é que no final também demos gorjeta para o guia, além de ter comprado os tecidos. Se você não gosta mesmo de tecidos, pode comprar outros souvenires que eles vendem por lá. Sobre a vestimenta, eu estava com roupa de praia, pois tinha passado o dia visitando várias, mas isso não foi problema para a visita (perguntei antes). Os moradores da vila estão muito habituados aos turistas e aos milhões de cliques que fazemos deles. Eles são muito simpáticos, apesar de poucos falarem inglês e conseguirem se comunicar conosco.

Vila tradicional sasak Sade, Lombok.

Vila tradicional sasak Sade, Lombok. Foto: arquivo pessoal

Há muitas crianças na vila e adoramos observá-las sendo criadas tão “soltas”, em universo tão diferente do que crescemos. O guia, um dado momento, apontou um menino e uma menina de uns 9 anos, aproximadamente, e disse que ele provavelmente já está pensando em como raptá-la no futuro. Não consegui me expressar a respeito disso. Outro fato curioso que vimos lá é que galos são criados como animais de estimação, até vimos um “na coleira”.

galo estimação

Galo de estimação. Foto: arquivo pessoal

sasak lombok

Meninos sasak que fazem a apresentação cultural. Foto: arquivo pessoal

vila sasak sade lombok

Vila sasak Sade. Foto: arquivo pessoal

***

Espero que tenham gostado de conhecer um pouco sobre essa cultura tão intrigante dos sasak de Lombok! E espero mais ainda que tenham a oportunidade de irem até lá. Creio que essa foi a experiência mais enriquecedora que tivemos nessa ilha e, mesmo que sua viagem seja para curtir as praias, tire um tempinho para dar uma passadinha lá. A vila Sade fica a apenas 15 minutos da praia de Kuta de Lombok 🙂 E se quiserem conferir outros posts da Indonésia, cliquem aqui. Beijos e até a próxima!

confira os posts relacionados

Comente via Facebook

Comente com o WordPress

  • […] esses dois garotos na Vila de Sade, sul de Lombok. Eles estavam com o figurino e maquiagem da apresentação cultural que fazem […]

  • […] a um incrível pôr do sol em uma casa abandonada na estrada; no outro, falei sobre a visita à Vila Tradicional dos Sasak, chamada Sade. Hoje, vou falar para vocês das praias que visitamos no sul da ilha e da nossa […]

  • Gisele Rocha julho 26, 2017

    Interessante! Nunca tinha ouvido falar a respeito sobre essa vila, mas conheço outros povos isolados que preservam a cultura ancestral. Aliás, hoje nem tão isolados, pois assim como a vila Sade, muitas acabam virando receptivos turísticos e a fusão cultural acaba acontecendo, ainda que lenta e involuntariamente. Alguns podem ver isso como algo apocalíptico, mas não. Por se tornarem turísticas, essas comunidades tratam de preservar as suas tradições para apresentá-la para pessoas do mundo inteiro. Viva a globalização!

    • Pollyane
      Pollyane julho 27, 2017

      Oi Gisele! Absolutamente amei tudo que você disse e até incluiria o seu comentário como um parágrafo extra no post, do tanto que gostei e achei que resumiu tudo que tentei dizer. Muitíssimo obrigada por compartilhar as suas experiências e pensamentos conosco. Espero que possa ir à Sade também, então! Beijo grande.

  • Marcia julho 26, 2017

    Polly, que experiência! O sequestro com certeza é o ponto polêmico do post. Difícil ficar indiferente diante de diferenças culturais, por mais que tentemos, né?

    • Pollyane
      Pollyane julho 27, 2017

      Oi Márcia, é complicado entender mesmo, por isso o mais recomendado, nesses casos, é ouvir e abstrair! hehe. No caso do sequestro, como entendi (espero que corretamente) que a noiva é de comum acordo, e que faz parte do modo como eles realizam a cerimônia de casamento, nem achei tão “grave”. Em minhas andanças, já vi coisas muito mais complicadas de serem abstraídas! hehe. Obrigada pela visita! Beijo grande.

  • Vickawaii julho 25, 2017

    Oi, Polly! Então, to lendo seu blog dia sim, dia não (já li o post de hoje, inclusive!) e, dos últimos posts, os que eu mais gostei foram do parque abandonado e, agora, esse daqui! A gente vai lendo o post, “passeando” pelo lugar e, no meio de fotos e relatos super pessoais, como uma conversa mesmo, a gente encontra curiosidades do tipo o material que é usado e o fato dos homens sequestrarem as mulheres. E são sempre lugares tão diferentes que eu nuuuuuuunca tinha ouvido falar! Às vezes dá vontade de largar tudo e desbravar esse mundão hiuehi, mas enquanto não dá vou viajando através das suas postagens (:

    • Pollyane
      Pollyane julho 27, 2017

      Oi Vick! Bom, se você leu, se surpreendeu e ficou com vontade de visitar, então atingi o meu objetivo com o post! hehe. Como sempre, muito obrigada pelo carinho do comentário e espero que continue me visitando para ver as aventuras e roubadas que já me meti por esse mundo! =P Obrigada por acompanhar e pelo comentário. Beijo grande!

  • Lorraine Faria julho 24, 2017

    eu viajo junto nesses seus relatos. que lugar especial, privilégio mesmo poder conhecer e vivenciar tudo isso. mas ainda fico chocada com esses costumes de casamento mundo afora :\ uma pena!

    • Pollyane
      Pollyane julho 27, 2017

      Oi Lorraine! Não precisa sentir pena, querida… Até onde entendi, a noiva é de comum acordo com o “sequestro”, ou seja, não deve ser nada de mais para eles. Muito obrigada pelo seu comentário. Beijo grande!

  • […] 2 vilas tradicionais, a Penglipuran, em Bali, que falarei hoje, e outra em Lombok, que já falei nesse post. Como vi que os dois lugares ainda são desconhecidos pela maioria dos turistas que visitam o […]

  • Gabi julho 24, 2017

    Poli, amo demais seus relatos, a forma como você conta das suas viagens. Deixa sempre a gente com vontade de marcar passagem agora… Que linda essa experiência. A gente sempre sabe que existem lugares “isolados”, que vivem em outro tempo, que tem costumes tão diferentes – quanto raptar a esposa, rs – mas quase sempre fica no plano da imaginação e é um choque ver na realidade. Deve ser demais fazer essa visita, e ainda mais se rolar assistir uma dança. E sobre os tecidos? Concordo plenamente com sua visão, e eu adoraria compra-los. Pela foto são lindos demais, e é um reconhecimento para essas mulheres. Beijos!

    • Pollyane
      Pollyane julho 27, 2017

      Oi Gabi! Realmente, os tecidos são lindos 🙂 Fico muito feliz com comentário assim e espero que possa inspirá-la a visitar lugares diferentes assim, é muito enriquecedor! Beijo grande 🙂

  • Flávia Donohoe julho 24, 2017

    que lugar significativo, uma cultura que ainda resiste ao tempo, uma pena que povos tão diferentes sejam tão oprimidos, adoraria conhecer um local assim, enriquecedora experiência Polly!

    • Pollyane
      Pollyane julho 24, 2017

      Eu diria mais que são pouco conhecidos, Flávia. Por isso o nosso papel em divulgar lugares e culturas assim 🙂 Obrigada pela visita, beijoo!

  • Pollyane, obrigada por sempre compartilhar experiências tão interessantes e tão completas. Amo seus posts pq através dele acabo conhecendo diversos lugares mágicos que nunca sequer passaram pela minha cabeça.

    • Pollyane
      Pollyane julho 27, 2017

      Oi Niki! Obrigada pelo seu comentário e pelo carinho de suas palavras. Espero que um dia consiga viajar por esses lugares incríveis da Ásia e nos escrever a respeito também! Beijo grande.

  • Dieniffer julho 22, 2017

    Amei o post, é muito legal vivenciar uma cultura completamente diferente da nossa. Beijos <3

    http://www.viveresemaquiar.com

    • Pollyane
      Pollyane julho 27, 2017

      Oi Dieniffer! Muito obrigada pelo seu comentário 🙂 Beijo grande