Pois é, Polly…

Ceci e eu estávamos animadas para contar nossas últimas peripécias para você em mais essa cartinha, mas o clima não anda dos mais alegres, né?

A gente fica até sem vontade de contar uma história mais divertida… Por isso, tive a idéia de tocar em um assunto difícil, principalmente para nós que moramos em um país árabe e de cultura muçulmana: a questão da violência de gênero e dos rótulos do que é aceitável em termos de comportamento feminino e masculino. Rótulos que, querendo ou não, acabamos passando para os nossos filhos…

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Foto: Annie Spratt – Unsplash

Eu acho que esse tema é ainda mais importante por vivermos em uma nação culturalmente tão diversa da nossa e com valores que muitas vezes nós nem conhecemos muito bem. Podemos até nos iludir pensando que as diferenças são imperceptíveis aos olhos infantis, mas as crianças vão à escola, brincam com outras e acabam vivenciando realidades de que a gente nem desconfia. Então, depois de ler tantas mensagens e textos sobre esse tema nos últimos dias, pensei em juntar algumas ideias sobre como as famílias que vivem aqui em Abu Dhabi podem tratar dessa questão tão delicada, que é o estereótipo do comportamento feminino e masculino na sociedade.

Em primeiro lugar, acho que não adianta tentar fingir que o elefante não está na sala: ver mulheres com o rosto totalmente coberto não tem nada a ver com o padrão de comportamento feminino a que estamos acostumados no Brasil. Não dá para fazer de conta que os pequenos não notam. É necessário trazer o assunto à tona, até para ter a chance de entender como (e se é que) ele afeta a criança. Por exemplo, nas lojas de brinquedos – que, aqui em Abu Dhabi, talvez mais do que em qualquer outra cidade que eu conheça -, a discrepância entre a seção dos meninos e a das meninas é gritante.

Outro dia eu combinei uma “brincadeira” com a Ceci: a gente ia entrar na loja só para ver os brinquedos, e ela ia me explicar que tipo de brinquedo era aquele e como fazia para brincar. Mas eu iria escolher os lugares para visitar dentro da loja. De propósito, fui direto para a ala dos garotos. No começo, ela protestou, mas depois se interessou pelos carrinhos, figuras de super herói e dinossauros. Comentou que era o brinquedo preferido do “George”, do desenho da Peppa Pig. Eu quis saber como que ela brincaria com aqueles brinquedos. E se ela achava que os meninos brincavam de uma maneira diferente da dela. “Menino gosta de chutar as coisas, mamãe!”, foi a resposta que saiu.

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Foto: Jason Rosewell – Unsplash

Sem me dar por vencida, propus que passássemos então, para o lado das meninas. Mostrei uma boneca daquelas tipo bebê. Ela se derreteu. Perguntei: você acha que um menino ia gostar de ganhar essa boneca? Ela me olhou desconfiada: “Nããããão né, mamãe?”, devolveu, rindo. E eu disse: “Por que não? Menina pode brincar de ter filhinho, mas menino também, não é? O papai não cuida de você? A mamãe não cuida de você? Você é a nossa boneca.” E dei-lhe um abraço. “A criança brinca para aprender as coisas que vai fazer quando for grande, Cecilia. Tanto os meninos quanto as meninas vão ter filhos, vão virar papais e mamães, por isso todo mundo pode brincar de boneca um pouquinho.”

Dependendo da idade da criança, é possível tratar do assunto em uma conversa mais direta, pegando como exemplo alguma situação do dia-a-dia. Acredito que esse tipo de interação funciona como uma espécie de “vacina mental”, prevenindo a instalação de preconceitos na cabeça dos nossos filhinhos. E dando a eles, também, uma argumentação que eles poderão usar em outras situações quando forem confrontados por coleguinhas com uma formação diferente e outros costumes. O mais importante é acreditar que dá para transmitir nossos valores em ofender a religião e os costumes do país onde estamos vivendo.

Até a próxima!

Dani+Ceci

lagartapintada

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