29 de junho de 2015

Abu o quê?!

Confesse. A primeira vez que você ouviu o nome “Abu Dhabi” essa foi a primeira coisa que você disse.

Desde que anunciei ao mundo que estou de mudança para lá, pude observar um novo padrão de comportamento humano, que até então desconhecia. Esse comportamento é dividido em algumas fases. Vamos a elas:

O estranhamento

Você diz “estou me mudando para Abu Dhabi” e espera ouvir “ah, que legal!”, mas ao invés disso você ouve “Abu o quê?!”, “onde é isso?”.

Sim, minha gente, ninguém sabe onde fica essa cidade. O nome é estranho e demora um pouco para sair corretamente da boca das pessoas (nem vou falar em relação à escrita…). Aí, pacientemente, a gente explica que é a capital dos Emirados Árabes Unidos e a pessoa diz “ahhh…”, porque, é claro, ela não sabe que país é esse e continua sem saber aonde fica. Depois disso, vamos para a segunda fase, que é…

A associação

Você bem que tentou falar de Abu Dhabi na esperança de que ela fosse reconhecida por si só, mas falhou. Aí você apela para a melhor associação que as pessoas têm de lá: Dubai! E diz: “então, é o mesmo país de Dubai”, e ela “ahh, claro!!!”. Bingo! Agora a pessoa já conhece 2 dos 7 Emirados que o país é composto, tá quase!

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Foto: Wikipedia

Abrindo um parênteses: se essa conversa for com uma mulher, há uma chance de mais de 95% que ela diga “hmm, foi lá que foi filmado o filme Sex and the City 2, né?”. E aí a gente pula para a terceira fase:

As ideias incorretas

Acontece com você, comigo, com os meus amigos, com o meu vizinho, com todo mundo! Geralmente, associamos os lugares que não conhecemos a filmes ou novelas, experiências de pessoas que já foram, e, mais raramente, livros. O problema dos dois primeiros é que eles possuem uma enorme licença poética para “pintar” o cenário como bem entender. Ou vai dizer que quando você assiste as novelas das 20h você acredita que os países são mesmo daquele jeito? E todo mundo fala português?

Mas não é bem por aí… Especificamente sobre o filme “Sex and the City 2”, não foi filmado em Abu Dhabi, mas sim em Marrakesh, no Marrocos. Por que? Bem, porque os governantes daqui não deixaram! Afinal, é um país conservador, embora turístico.

Outra ideia incorreta que algumas pessoas têm é a de que é um lugar pobre, afinal, é deserto. Essa ideia é passageira, pois logo que você diz “Dubai” eles já fazem a associação contrária, de muito ouro, o que é verdade!! Bingo de novo!! E aí vamos para a quarta fase:

O complexo da riqueza

Hotéis de luxo, carros de luxo, condomínios de luxo, palácios, prédios modernos, mercados de ouro, cafés com ouro. De repente, o que era deserto virou ouro. Na cabeça do seu interlocutor, começam a aparecer as imagens de árabes andando em seus carrões, suas mulheres cobertas de ouro e você no meio disso tudo. Sim, você. “Nossa, então você vai começar a se cobrir de ouro!”. Oi? Eu estou mudando de país e não descobrindo uma mina de petróleo no meu quintal!!!

Gente, eu continuo pobre. Só para avisar mesmo, viu?

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Ouro em Abu Dhabi. Foto: Flickr

A generalização do Oriente Médio

Não só devido à  distância geográfica, mas muito mais pelo afastamento cultural, poucos de nós sabemos realmente o que se passa no Oriente Médio. Menos ainda entendem profundamente todas as questões envolvidas sobre os conflitos e a religião. E eu não me excluo desse grupo. O Oriente Médio está sendo, para mim, uma caixa de presentes, que estou desembrulhando bem aos poucos e, confesso, ainda não cheguei nessa parte.

Por conta da nossa ignorância sobre esses fatos, outra coisa que eu ouço bastante é “Credo, mas lá não é perigoso? Não tem homem-bomba? Atentados terroristas?”. Calma aê, galerê, não é bem assim. Mas é um pouco. É complicado.

O objetivo deste post não é aprofundar nessas questões, mas, com certeza, futuras explicações/impressões virão.

Essa quinta fase, da “preocupação”, está intrinsecamente associada às mulheres mais velhas, especialmente da minha família, tipo a minha mãe. (um beijo, mamãe :*)

A mulher

E eis que chegamos à sexta fase, onde a pessoa já sabe que você está se mudando para um país do Oriente Médio, perto de Dubai (ou a mesma coisa, para alguns), que tem um povo rico que gosta de ouro e que são vizinhos de outros que estão em uma zona de guerra.

Agora que as questões acerca do lugar estão mais ou menos esclarecidas, as preocupações se voltam para você, e aí começa o bombardeio: “Ihh, então você vai ter que usar burca? Vai ficar só com o olhinho de fora? Você vai ser obrigada a usar o véu? Pode usar biquíni na praia?”. “Não. Não. Não. Sim”.

mulher-burca

Fonte: Pixabay

Eu não sou muçulmana. Lá nos Emirados não precisarei me vestir como tal. Repito: lá nos Emirados. Em outros países, o uso de vestimenta “típica” é obrigatório para todas as mulheres, inclusive as expatriadas, que é o caso da vizinha Arábia Saudita, por exemplo. Sendo assim, minha gente, não vou precisar usar a burca e nem o véu na cabeça o tempo todo. O uso desses trajes pode ser obrigatório somente em algumas ocasiões, como ao visitar uma mesquita (soube que eles emprestam a roupa lá mesmo. Ufa!).

Mas uma coisa é certa: independente da obrigatoriedade ou não do uso desses trajes, é sempre recomendado o bom senso na escolha das roupas. Decotes, transparências, ombros de fora, roupas curtas ou que deixem as curvas da mulher em evidência não estão com nada lá. Você não será presa por isso, mas será alvo de olhares fuziladores e ofensas verbais nas ruas. Para evitar a fadiga, já comecei a repensar o meu guarda-roupas…

A confusão dos costumes

Já não basta as pessoas quererem que eu vista burca, ainda aprontam para o meu lado com as famigeradas piadinhas. “Hmmm, então seu marido vai poder ter outras esposas?”, “Ele pode te trocar por uns camelos!”.

Precisa de comentário? Acho que não, né? Te contar, viu?…

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Foto: Pixabay

Bom, é isso pessoal! Vamos ver se daqui até a data da viagem eu consigo aumentar essa lista. Rsrs.

E você, qual é a primeira coisa que te vem a cabeça ao ouvir “Abu Dhabi”?

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