O guia Valentin, do passeio que fiz pelo entorno de Bucareste, disse que a Romênia é conhecida por 3 coisas: Ciganos, Drácula e Comunismo. São os estereótipos do país, assim como no Brasil temos o Carnaval, Futebol e Bunda. Como podemos inferir desse tipo de rótulo, é sempre questionável se a ideia que o país possui para os outros lugares do mundo é realmente o que se passa na realidade. E, no caso da Romênia, não é diferente. Assim como “nem toda brasileira é bunda”, nem todo cigano é romeno, o Drácula não é de verdade e o Comunismo não deixou boas lembranças. Vamos utilizar esse artigo para discorrer um pouco mais sobre esses assuntos e as impressões que tive em minha visita ao país.

Ciganos

Ciganos fazem parte da má-fama da Romênia, ou pelo menos é isso que a maioria dos romenos acreditam. Como expliquei ao Valentin e aos outros turistas do passeio, no Brasil nós temos uma boa impressão dos ciganos, graças à novela Explode Coração, mas, somos a exceção. Grande parte dos romenos e dos demais europeus não se simpatizam com os ciganos (quando morava na Espanha, eles eram extremamente malquistos pelos espanhóis). Proporcionalmente à população total da Romênia, os ciganos estão em pouco número, mas quando se olha as populações de ciganos por outros países, aí a população da Romênia é grande. Por isso, para muitos países do mundo a Romênia está associada a ciganos e, ciganos, generalizando ao extremo, são mal vistos por muitos.

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Cigana na Romênia. Foto: Cristina Hélcias

O Valentin nos explicou que, por isso, muitos ciganos na Romênia acabam por tentar não aparentar sua origem. Eles mudam o seu vestuário e os seus hábitos para evitar preconceitos e problemas. Ele disse que possui amigos ciganos e que, nos dias de hoje, a má fama desse povo não se sustenta na prática, mas ainda permanece na memória dos romenos. A nossa experiência nesses 3 dias da Romênia, no que tange a ciganos, foi zero. Em alguns momentos vi pessoas na rua que não se vestiam como as demais, mas poderia ser apenas um gosto diferenciado, não podendo afirmar que eram realmente ciganos. De todo jeito, caso visite a Romênia e queira se aprofundar no assunto, creio que terá muita informação; mas, se tem preconceitos com ciganos, reveja seus princípios, pois não é nada disso como costumavam relatar no passado, e pessoas inescrupulosas estão por toda parte, de todas as nacionalidades.

Drácula

O Drácula é outro símbolo da Romênia e eu fiquei chocada em constatar como as pessoas podem ter uma imaginação fértil. Primeiro, preciso reforçar aos meus leitores que Drácula, ou vampiros, nunca existiram e não existem. Pasmem: há quem chegue na Romênia convicto de que encontrará essas personagens (enquanto eu tentaria ficar longe, se fosse verdade – vai entender…) e que briga com os guias por achar que eles não querem mostrar o Drácula original. Eu vou tentar resumir essa história de Drácula, mas, de novo, quem quiser se aprofundar no assunto, vai ter muita coisa para pesquisar.

Drácula é o nome de um livro de um irlandês chamado Bram Stoker, que foi publicado em 1897. O romance é sobre um vampiro chamado Conde Drácula que vivia em um castelo na Transilvânia (uma região da Romênia). O autor buscou inspiração em várias fontes mitológicas para escrever a história fictícia e chegou à Romênia e ao “castelo ideal para o Drácula”, que é o famoso Castelo de Bran, hoje super visitado por turistas, alguns inclusive que ainda acreditam na lenda. Vale acrescentar: Bram Stolker nunca pisou na Romênia. Além disso, ele buscou muitas fontes para o livro e, segundo ouvi de 2 guias na Romênia, uma das inspirações foi o chupa-cabra. Sim, o “nosso” chupa-cabra. Não me perguntem se isso é verdade ou não.

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Castelo de Bran. Foto: CC

Mas a principal “inspiração” de Bram foi certamente Vlad Tepes, Vlad III, ou Vlad, o Empalador. Se quiserem ver um artigo em português com o resumo da história dele, cliquem aqui. Bom, Vlad Tepes foi um príncipe governador da Valáquia, outra região da Romênia. Mas por que Transilvânia, então? Por que foi lá que ele nasceu. Vlad Tepes nunca morou no Castelo de Bran e, segundo os guias, passou apenas 3 noites de sua vida lá. Se você procurar bem, vai achar o “tour real” do Drácula, ou de Vlad Tepes, visitando lugares em que ele realmente esteve. Quanto à Transilvânia, apesar de estar “distante” de Vlad, foi o cenário escolhido para o livro Drácula e, de fato, é um lugar muito bonito e interessante para se visitar, assim dizem.

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Estátua de Vlad III no centro histórico de Bucareste, nas ruínas de sua antiga residência. Foto: arquivo pessoal

Voltando ao Vlad, o Empalador, o sinistro apelido já é auto-explicável. Tepes inclusive significa “empalador”. O governador tinha o hábito de matar os seus inimigos, no caso o exército do Império Otomano e os rebeldes locais,  usando essa técnica de empalamento (introduzir, via anal, uma estaca na pessoa, cuidando para não pegar órgãos vitais e deixá-la “espetada” para morrer lentamente). Ele era sanguinário e muito cruel para com seus inimigos, mas para a população local é um herói nacional, pois ele não estava fazendo mais do que a sua obrigação de defender o território contra as investidas do Império Otomano. Palavras dos guias.

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Vlad III, o Empalador. Foto: CC

Nunca foi relatado que Vlad tomava sangue humano, isso faz parte somente da lenda. Sobre a sua associação ao nome Drácula, há várias hipóteses para isso. Uma delas é que ele e seu pai, Vlad II, faziam parte da Ordem do Dragão, que em latim vem de dracul; e dracula, por sua vez, significa “filho do dragão”. Na língua atual, dracul também pode significar diabo, logo, se você juntar isso à fama que Vlad III possuía…

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Vlad III e sua “floresta”. Foto: CC

Em resumo, Drácula é um livro de um irlandês que nunca esteve na Romênia e leu muita coisa para escrever a obra fictícia. Ele provavelmente se inspirou no governador Vlad, o Empalador (1431 – 1476) para ser a personagem principal do livro e o nome Drácula pode ter vindo do fato de Vlad III ser chamado assim na língua romena pela Ordem a qual fazia parte. Sacaram?

Comunismo

Não que eu tenha visto ciganos ou o Drácula na Romênia, mas o Comunismo, dentre os 3 aspectos-estereótipos, foi o que menos tive contato. E isso não quer dizer que, assim como o Drácula, seja lenda; ou que, como os ciganos, seja um parte que quase não se vê. O que acontece é que os vários anos de governo socialista no país deixaram marcas profundas em seu povo, na economia do país, na arquitetura… Os anos de socialismo estão por todos os lados, mas não será qualquer pessoa que estará disposta a falar sobre isso conosco. Valentin, o guia, por exemplo, não quis entrar nesse assunto.

O maior símbolo do comunismo na Romênia é o Palácio do Parlamento, um gigantesco prédio que fica no centro de Bucareste, perto da parte história da cidade, construído pelo ditador comunista Nicolae Ceaușescu. Esse edifício, que começou a ser construído no começo da década de 80 e custou fortunas aos cofres públicos, teve seu gasto estimado, em 2006, em 3 bilhões de euros e, ainda, o prédio não está 100% finalizado. Apesar de todos os títulos de suntuosidades que o prédio público ostenta (o maior edifício administrativo civil do mundo, dentre outros recordes), o Palácio do Parlamento gera sentimentos de revolta na população, que viu tanto dinheiro e materiais romenos sendo utilizados para essa construção enquanto o país passava por severas crises econômicas.

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Palácio do Parlamento, em Bucareste, Romênia. Foto: arquivo pessoal

Pelas ruas de Bucareste, vemos prédios que datam da época socialista: formas retas, sem adornos, “caixas quadradas” usadas para o povo morar. No Walking Tour, a guia foi explicando um pouco sobre esse período e a revolução de 1989, que tirou o governo do poder. Eu recomendo o tour se você gosta de História, mas se quer realmente se aprofundar na época socialista romena, faça o Tour Comunista, além de visitar o Palácio do Parlamento.

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E você, já visitou a Romênia? O que acha desses 3 estereótipos do país? Deixe nos comentários e vamos trocando figurinhas sobre esses assuntos. Veja os outros posts sobre a Romênia aqui. Até a próxima!

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  • […] outro país do continente. Junto com a sua nacionalidade, também carregaram a má fama que contei neste artigo que os ciganos têm. Resultado: há romenos por toda a Europa e, generalizando, eles são mau vistos […]

  • Ana Poli novembro 4, 2017

    ótimo o seu artigo e explicações! Realmente, esses são os três estereótipos romenos e praticamente tudo o que escutamos sobre o país, né? felizmente é possível reverter essas ideias com toda a informação que podemos encontrar hoje em dia. obrigada por compartilhar!

    • Pollyane
      Pollyane novembro 5, 2017

      Oi xará! Pois é, é incrível como criamos essas fantasias em nossa cabeça e depois percebemos que nem tudo está correto! Acho que tem coisas que precisamos ver para criarmos nosso próprio entendimento. Obrigada pela visita e pelo comentário. Beijo grande

  • Vickawaii novembro 3, 2017

    Que bacana, Polly! Não sabia sobre os ciganos e, sobre Dracula/Vlad Tepes, sabia que o Vlad serviu de inspiração para o Drácula e que o Drácula não era real LOL, mas não sabia que Bram Stoker nunca pisou aí, que Vlad não vivia no “castelo do Dracula” e, algo que me chamou muito a atenção, o Vlad Tepes é um “herói’ por aí. Deve ser bastante interessante fazer o “tour real”, assim como deve ser bacana saber um pouco mais sobre o comunismo na Romênia.

    Beijinhos, Vickawaii
    http://www.neverland.com.br

  • Natácia novembro 3, 2017

    Muito interessante a questão dos ciganos. Imaginei que na Romênia haveriam por toda parte.