Era uma vez, uma brasileira morando em Abu Dhabi e que não conseguia fazer a unha do próprio pé. Cansada de usar somente sapatos fechados, resolveu desbravar o deserto à procura de alguém que a tirasse dessa triste condição…

Tudo começou quando, algumas semanas atrás, resolvi procurar uma pedicure aqui pelas redondezas. Fui a um salão aqui em frente ao meu prédio e a recepcionista quase precisou me dar um copo de água para eu me recuperar do susto do preço. Eu já imaginava que era caro, mas nada havia me preparado para isso até então… Agradeci à moça, peguei o panfleto do lugar e dei meia volta. Fui ao salão que fica dentro do hotel aqui perto e, ainda anestesiada pelo susto do outro, mal ouvi quando a menina disse que era ainda mais caro… “Ah, quer saber? Vamos logo com isso!”.

Pagando o equivalente a R$ 80,00 para fazer SOMENTE O PÉ, claro que aproveitei para fazer disso uma verdadeira experiência cultural, me deleitando por cada pedacinho de unha que ela cortava.

A moça era filipina (na verdade, todo esse ramo de beleza é atendido pelas filipinas). O nome eu esqueci. Era muitíssimo simpática. Durante os 60 minutos que fiquei lá, conversamos o tempo todo. Percebi que ela ficou muito animada por notar que eu queria conversar com ela – acho que não é um hábito comum entre suas clientes. Expliquei do blog e pedi para fotografar o “processo”. Ela concordou e aí vai (cuidado, imagens fortes!):

manicure abu dhabi pedicure

Pezinho de molho em água morna. Foto: arquivo pessoal

Os produtos que ela utiliza: creme de amolecer cutículas, espátula, alicate, escovinha, base e o esmalte clarinho da Essie que eu escolhi. Foto: arquivo pessoal

pedicure filipinas

Elas não “tiram cutícula” como estamos acostumadas no Brasil, mas sim fazem uma “limpeza” – como elas chamam – que é empurrar a cutícula e ficar passando aquela escovinha vermelha na unha. Foto: arquivo pessoal 

Também lixam e esfoliam o pé. Foto: arquivo pessoal

pedicure abu dhabi

Resultado final: eu gostei, apesar de ainda preferir o modo brasileiro. Foto: arquivo pessoal

Lá pelas tantas, enquanto cutucava o meu pé, ela me perguntou: “no Brasil vocês leem cartas?”. “Oi?”. “No Brasil vocês leem cartas?”. “Sorry?”. Juro, ela teve que repetir umas 4 vezes! E não porque eu não estava entendendo o seu inglês, mas porque não podia acreditar que, do nada, ela me perguntou sobre cartomantes! Mas era isso mesmo.

E, naquele momento, me senti como um adulto que é interrogado por uma criança sobre algo de teor sexual. O que dizer a ela? O que eu sei sobre isso? E se ela quiser saber mais? Bom, não menti. “Sim, há pessoas que leem cartas, que veem o futuro nelas”. “Ah, nas Filipinas também!” [Ufa!].

Não parou por aí. De repente, estávamos falando sobre Espiritismo, mediunidade, reencarnação… Ela, fascinada. Eu, receosa. Fiquei com medo de chocá-la, de assustá-la, de estar cometendo um crime – vai saber. No entanto, correu tudo bem.

Acho fantástica essa troca cultural que esta cidade nos proporciona! Quisera eu poder ir ao salão toda semana e responder a todas as coisas que ela me perguntar – além de bombardeá-la com várias questões também.

Enquanto conversávamos, fiz uma própria constatação: impressionante como no Brasil somos “dados” a tantas religiões, credos e rituais diferentes, não é mesmo? O indivíduo nasce; logo já é batizado na Igreja Católica; às vezes frequenta a escola dominical Protestante, levado pela tia; vez ou outra vai ao centro de Umbanda para conversar com o preto velho; e se brincar, ainda faz oferendas no mar para Yemanjá! Só no Brasil você ouve ateu dizer “pelamordedeus”, “graçasadeus”, “aimeudeus”.

Talvez seja isso, ou pelo menos um pouco disso, que nos faz um povo tão “plástico”, tão amistoso e tão facilmente adaptável a outras culturas. Afinal de contas, somos o resultado de, resumidamente, 3 povos: indígenas, europeus e africanos, cada um com seus costumes e crenças. No fim das contas, acho que a mistura genética não se expressou somente nos caracteres físicos, mas também nos religiosos. E se eu não posso generalizar, digo isso pelo menos por mim!

Essa mesma plasticidade trouxe muitos brasileiros para cá e os permitiram gostar tanto daqui! E eu sei que eles vão continuar a celebrar a Páscoa, o Natal, os feriados de santos e, se alguém convidá-los a ir a um Mosque, tenho certeza que irão! E terão amigos católicos, protestantes, espíritas, budistas, muçulmanos…

O meu povo é lindo demais!

E quanto à pedicure? Bom, ela me encheu de mimos… Provavelmente esperando que eu voltasse novamente para me interrogar em uma outra sessão de unhas/espíritos. Quem sabe um dia.

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  • […] compre e comprove que o sabor era muito pior do que parecia… 🙁 6º Ainda traumatizada pela pedicure de R$ 80,00, resolvi testar minhas habilidades como cabeleireira. Deu certo! Ufa… [Crianças, não […]

  • Edilair setembro 30, 2015

    O que é Mosque?

  • Márcia Barbosa de Souza setembro 28, 2015

    Polly, acho que vou para Abu-Dhabi e mudar de profissão, compensa muito mais ser manicure/pedicure ai!!!!