18 de setembro de 2015

Take it! Take it! Take it!

Querido diário,

Se lembra daquele site Dubzzile que vende de tudo aqui? Então, ontem eu estava pesquisando sobre um “cabinet”, que no Brasil chamaríamos de “cristaleira” e, entre algumas opções disponíveis, liguei para um anúncio que parecia ser um bom negócio. Uma mulher atendeu… e ela não falava inglês! De alguma maneira empírica, consegui pedir que ela me enviasse por SMS o seu endereço para que pudesse verificar o móvel e, talvez comprá-lo. E assim ela o fez.

Mais tarde, me ligaram do mesmo número, só que dessa vez era o esposo dela, que conseguia falar inglês. Perguntei se poderia ir até a casa deles hoje, sexta-feira, e ele me disse que sim, desde que fosse à noite, às 17 horas (sim, para eles esse horário já é noite aqui, diário, um dia te conto melhor sobre). Quando ele disse isso, logo lembrei que sexta é o dia sagrado para os muçulmanos, logo, eles estariam em oração durante o dia. Ops, que vacilo!

E aí hoje, quando deu 17 horas, liguei para eles e perguntei se poderia ir lá. “Of course, welcome!”, eles disseram. E foi a primeira vez que tiramos o carro da garagem: marido dirigindo, eu com o Waze em mãos… e nos perdemos! Encontrar um endereço aqui é uma missão complicadíssima! A culpa não foi minha, nem do marido e nem do Waze, mas sim do ponto de referência que não conhecíamos. Acontece. Como já estávamos demorando, eles me ligaram e quando eu contei que estávamos perdidos, ele, pacientemente nos explicou novamente o caminho, até que chegamos!

Descemos do carro e cumprimentamos a família, que nos esperava à porta. O pai, a mãe (de abaya) e duas crianças. Entramos na casa e era impossível não notar na bagunça. Desculpa… Havia muitos móveis em toda parte, mas todos fora de seus lugares, como se estivessem de mudança… e estavam! Mudariam para o segundo andar da casa (uma villa – o jeito que eles chamam casa aqui – de 7 quartos). O proprietário do imóvel havia subido novamente o preço do aluguel, sem aviso prévio e sem escrúpulos, deixando a família com duas opções: ou se mudam da casa, ou passam a ocupar somente o andar de cima (para o proprietário alugar a parte de baixo para outra pessoa). Eles ficaram com a primeira opção e, por isso, estavam vendendo boa parte dos móveis, inclusive o meu cabinet.

Olhamos o móvel, gostamos, negociamos e falhamos. Ele não abaixava o preço por nada. Ok, somos péssimos em negociação mesmo. Acho que ainda preciso de muito tempo de mundo árabe para ficar boa nisso 🙁 De qualquer jeito, decidimos levar o cabinet e o dono ligou para alguém que pudesse fazer o frete para nós. E aí esperamos, esperamos, esperamos. Ao todo, ficamos 2 horas na casa deles, entre olhar o móvel e retirá-lo de lá.

O pai nos acomodou na sala enquanto aguardávamos. As duas crianças, uma menina de 10 e um menino de 8 anos, ficaram conosco o tempo todo. Eles me olhavam e sorriam sempre. Cada um mexia no seu iPad. A menina assistia desenhos; o menino assistia novela turca. Os dois falavam em inglês muito bem. Perguntei em qual língua eles aprendem na escola. “Em árabe e em inglês”, me disse a menina, “por enquanto, aprendo matemática em árabe, mas depois será em inglês”. Dá para imaginar, diário?

Quis saber de onde eles eram e ela me disse uma dezena de vezes, mas em árabe. Peguei o meu celular e abri o mapa para que ela me mostrasse onde era e ela me mostrou: Palestina. Mais tarde, o pai explicava para o marido que, na verdade, os avós (ou pais) dele eram palestinos, que fugiram para a Síria e que ele já mora há mais de 10 anos aqui nos Emirados – e que nunca esteve na Palestina. Eles são palestinos porque é assim que eles se sentem. E quem vai dizer que não? Fiquei profundamente reflexiva sobre essas pessoas que nunca visitaram a terra de seus antepassados, mas que garantem que essa é a sua origem, independente do lugar do nascimento.

Brasileiro é tão ao contrário disso… é capaz de viajar para outro lugar na hora de dar à luz só para dizer que o filho tem outra naturalidade, ou nacionalidade. Sem julgamentos, é só uma observação mesmo. Eu não posso dizer que faria o mesmo, ou que não faria, vai saber! Talvez seja até complicado para o brasileiro ser “apegado” à origem de seus antepassados, já que em 2, 3 ou no máximo 4 gerações passadas já estaríamos falando de “portugueses”, “africanos”, “holandeses”, “italianos”, “indígenas”… E aí, como é que fica? É o que eu sempre digo, sou brasileira mesmo e ponto. F***-se se tem num-sei-o-que-lá-avô de num-sei-aonde. O importante é que esse povo todo se misturou e cá estamos, brazucas legítimos.

Mas, voltando àquela sala de estar, diário, continuamos a nossa “futricação” sobre culturas tão distintas. E não se engane, eu não era a única curiosa ali. As crianças estavam completamente fascinadas pela nossa presença na casa deles. O menino me disse para mudarmos para a parte de baixo da casa. Ah, essa ingenuidade! Me arrancou sorrisos… A menina me disse sem rodeios para que voltasse lá na próxima quinta ou sexta-feira. Ela queria conversar… Ela queria saber mais… Ela queria ensinar mais!

Falamos sobre futebol – óbvio – falamos sobre o tamanho dos países, falamos sobre nós. A menina me disse que não gostava de hindus. Ela me perguntou se eu gostava de hindus e eu disse “eu gosto de todo mundo” – ela não sabe o que é ser aquariana. Ela me disse que, como muçulmana, me via como uma irmã mais velha e que ela se espelharia em mim quando chegasse à vida adulta. Céus, quanta responsabilidade!

Fomos apresentados à gatinha da família, que inclusive faz aniversário no mesmo dia que o marido, fato que foi “comemorado” por eles com tapinhas nas mãos, tipo assim: o/\o Por que? Não sei… Mas pareceu uma forma de manifestar que algo é bem legal e deve ser vibrado. Em um dado momento, as crianças apareceram com uma sacola cheia de “porcarias”: batata frita, balas, doces, chocolates. Eles nos ofereceram e nós, cordialmente, recusamos. Mas o menino insistiu e nós negamos. E ele insistiu de novo: “take it”, “take it”, “take it”. Claro… “ok, thank you”.

Eu e o meu “choki choki” – um chocolate no saquinho. Foto: arquivo pessoal

Marido comendo o seu “choki choki”. Foto: arquivo pessoal

Mal terminamos o “choki choki” e lá vem o menino de novo nos oferecendo uma goma, tipo jujuba. Eu recusei novamente, mas ele insistiu. Eu dei a desculpa que ainda não havia terminado o choki choki, mas ele disse que eu poderia guardar para mais tarde. “Take it, take it, take it”. “ok…”. Eu já sabia que não teria fim. A essa altura eu já estava repensando em aceitar a água que o pai deles havia oferecido quando chegamos. O menino teve uma ideia genial: a gente poderia voltar depois e comprar mais coisas da casa dele! Enquanto isso, nada do cara do frete.

Minha pulseirinha que ganhei de presente da menina palestina. Foto: arquivo pessoal

Ainda deu tempo de a menina me dar mais um chocolate… E essa pulseirinha 🙂 Eu não queria me despedir sem dar-lhes algo. Fucei a bolsa e a única coisa que encontrei foi uma moeda de 0,10 centavos de Real. “10 dirhams?”, o menino perguntou. (HAHAHA) “não”, eu disse, “apenas 0,10 centavos, como ‘fils'”. Nesse momento, a menina recusou a minha moeda e o menino falava baixinho “take it, take it…” e então eu disse a ela “take it!”. Ela pegou e fomos embora.

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  • Lidiana setembro 21, 2015

    Polly, que grata surpresa esse texto! Que incrível você aí em contato com tudo isso.
    Essa coisa de se sentir parte, mesmo sem nunca ter ido à Palestina é de uma potência e para mim explica muitíssimo sobre esse lado do mundo. É muito forte isso, muito bonito também. Obrigada por compartilhar.